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Sou doutora em Literatura. Escrevo há mais de 15 anos, mas sem disciplina. Sou aquela escritora que se guarda para o futuro, à espera de um grande acontecimento. Sinto que chegou a hora. É com retalhos e epopeias que me inventarei - com pequenos e grandes eventos - com fragmentos e grandes feitos - serei a tecelã de uma história e a sua heroína. Serei Penélope e Odisseu. Me acompanhe nesta viagem! Colunista da seção de Escrita Criativa na comunidade literária Benfazeja. Livros publicados: FLAUIS (2010) e RETALHOS E EPOPEIAS (Editora Patuá, 2012). Mais sobre mim em meu site oficial

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03 maio, 2012

Retalhos e Epopeias (Editora Patuá): o blog que agora é livro.




Este blog nasceu em 30 desetembro de 2010. Cheguei tarde, quando muitos autores e aspirantes à escrita já se expressavam de longa data por meio desta ferramenta tão contemporânea. Levei tempo para aderir. Cheguei sem ideia do que poderia acontecer, mais pessimista do que esperançosa. “Há tanto para ler na internet, por que alguém se interessaria por esta confissão aberta e pela proposta de mover a roda com minhas próprias mãos?”Nunca acreditei que teria leitores, que sairia do anonimato ou encontraria um editor mágico para me salvar do limbo dos ignorados.

A proposta do blog, no entanto, era talvez mais ambiciosa: servir de veículo para a minha transformação. Tornar-se meu estilo de vida. Respeitar “o grito que jamais cessa”. E, por meio dos textos aqui postados, passar a acreditar que sou uma escritora.

De fato, consegui manter um certo ritmo de postagens. Entre textos novos, fui postando os retalhos, aqueles que guardamos em caixas e baús, tão ínfimos e insignificantes para o outro, mas com uma longa epopeia por detrás, realmente fabulosa somente para quem viveu a experiência. Como consequência, surgiu a coluna de Escrita Criativa no site literário Benfazeja; surgiu o convite (vindo de Tarcísio Pereira) para a oficina de escrita criativa na Semana José Lins do Rego em João Pessoa; o curso de formação deescritores na Escola Waldorf em Ribeirão Preto; a participação na Feira doLivro de Ribeirão (em 2011) e no programa televisivo Sala D Visitas (Canal Band).

Eu já não poderia mais falar em anonimato, apesar de que esse conflito entre se tornar reconhecido e ser pessoa comum seja uma de minhas preocupações (com planos de virar livro). Havia sim, um editor mágico, com a boa intenção de me tirar do limbo. Por mais que a internet nos deixe claro que somos somente um a mais na multidão, o movimento de se colocar no rio, de nadar entre os peixes, molhando dedos e cabelos, é participar da existência, é o vir-a-ser que todos buscamos. Num desses momentos de mergulho, encontrei a Editora Patuá., que vem fazendo um trabalho histórico com a edição de novos autores. O “blog que nasceu de um grito” tornou-se o primeiro livro publicado por uma editora. O livro está pronto no site da editora e o lançamento marcado para acontecer em maio. Quem não puder aparecer em Ribeirão Preto para falar diretamente comigo pode comprar o livro pelo site da Patuá e receberá meu autógrafo.

Compartilho agora, em primeira mão, a maravilhosa orelha que o romancista, dramaturgo e ganhador da Bolsa de Criação Literária Funarte (2009) escreveu especialmente para Retalhos e Epopeias:


Carolina Bernardes tem uma literatura muito pessoal. Possui uma identidade com impressões digitais a cada frase, cada imagem, num texto límpido e fulgurante que reúne, a um só tempo, objetividade e complexidade interior. Temos, aqui, a marca de uma escritora que conseguiu definir e impor um estilo. A sua prosa é o resultado de uma transcendência de gênero, é a predileção de quem buscou ir além de um mero padrão convencional de poesia. Ela traz a poesia, ela é a poeta cuja inquietação ocasiona desdobramentos de formas, porque precisa da prosa para narrar e fazer histórias, mas fazer histórias como quem compõe longos poemas.

Esta obra poderia ser, portanto, um livro de poesias, mas não é. Lendo-a, primeiro mergulhamos na dimensão mais profunda do seu poço poético, mas depois retornamos à superfície da prosa para navegar em águas que narram, e que nos levam a desfechos surpreendentes de fábulas humanas. Carolina consegue nos envolver em metáforas sem expulsar-nos da fábula. E fábulas sensoriais, aparentemente banais, de fatos ou situações comuns para cada ser que pensa, sente, questiona e vivencia diariamente experiências análogas. Essa prosa é uma voz subjetiva da autora e, ao mesmo tempo, um clamor vivo, portanto identificável a partir do momento em que nos familiarizamos com seus textos.

Convém observar, porém, que essa familiaridade, ou empatia, não se revela na primeira linha, nem ainda no primeiro parágrafo, talvez nem mesmo no primeiro texto. Quem nunca leu Carolina, é preciso ter a paciência de compreendê-la a partir do segundo ou terceiro texto. Ela faz parte de um time de autores cujas narrativas precisam de um tempo, não tão longo, para serem totalmente absorvidas.  A partir do instante em que o conseguimos, fica difícil largar o seu texto. E passamos a querer uma nova história quando chegamos ao fim.

Tarcísio Pereira

Romancista e dramaturgo
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22 janeiro, 2012

O rei de Assine - Giorgos Seféris

        O poema "O rei de Assine" de Seféris é um dos meus preferidos de toda a literatura. Neste momento, especialmente, tenho estado novamente em contato com ele, pois as linhas de força de meu próximo romance aí se encontram condensadas. Creio que passarei uma longa fase viajando por Assine e em busca do rei que a história jamais lembrou. Apenas duas linhas inscritas na Ilíada o rememoram.


O Rei de Assine
Assíne te...
                                                                           Ilíada
A manhã toda olhamos em redor da fortaleza
a começar do lado da sombra, sítio em que
o verde mar sem brilhos, arnês de pavão morto,
nos acolheu como um tempo sem lacunas.
As estrias da rocha desciam lá do alto:
vinha nua e torcida, seus múltiplos sarmentos
reviviam ao toque da água e o olho a acompanhá-los
lutava por escapar ao fatigante embalo
cuja força ia sempre declinando.
Pelo lado do sol, uma longa praia aberta
e a luz a lapidar diamantes na muralha.
Nenhum ser vivo: as pombas, fugitivas,
e o rei de Assine, que há dois anos procurávamos,
ignoto, esquecido de todos, e de Homero
uma só palavra na Ilíada, mas dúbia,
ali deixada qual fúnebre máscara d’ouro.
Tocaste-a – lembras o som? – vazio dentro da luz,
jarro seco no chão escavado,
e o mesmo som no mar aos nossos remos.
O rei de Assine, um oco sob a máscara,
em toda parte conosco, conosco sempre, sob um nome:
“Assíne te... Assíne te...”
                            e seus filhos estátuas
e suas ânsias um tatalar de asa de pássaro e vento
soprando-lhe entre as cismas, seus navios
ancorados em porto indiscernível;
por sob a máscara, um oco.

Além dos olhos grandes, da curva dos lábios, dos anéis dos cabelos
inscrito no ouro que nos cobre a existência,
um ponto tenebroso viaja como peixe
em meio à calma matinal do mar, e ali o vês:
vai um vazio conosco a toda parte.
E a ave que se foi de
asa quebrada
a um refúgio de vida no outro inverno,
e a moça que fugiu para folgar
entre os dentes caninos do verão,
e a alma lamentosa buscando o mundo ínfero,
e o sítio, larga folha de plátano que o sol leva no seu fluxo
com os velhos monumentos e o pesar coevo.
E o poeta que se atrasa a contemplar as pedras pergunta a si próprio:
acaso subsiste,
entre estas arestas confusas, picos e cimos, ocos e curvas,
acaso subsiste
neste passo da chuva, do vento, da ruína,
subsiste o trejeito do rosto, a forma dos afetos
daqueles que estranhamente minguaram em nossa vida,
que ficaram como sombra nas vagas, pensamento no mar infindo?
Nem isso talvez deles sobrasse; nada, além do peso
ou nostalgia do peso de uma existência viva,
aqui onde ora estamos incorpóreos, pensos
como ramos de um salgueiro terrível, tombado sobre o vão do desespero,
enquanto, citrino e lento, o rio arrasta para o lodo juncos extirpados,
forma feita pedra em amargor perpétuo, pertinaz.
O poeta, um vazio.

Com seu escudo, o sol ascende, combatendo,
e do fundo da caverna um pávido morcego
inflete contra a luz qual seta contra o escudo –
“Assíne te... Assíne te”: ali estava o rei de Assine
que nesta acrópole com tal ânsia procuramos,
nossos dedos lhe aflorando o rastro sobre as pedras.
                                      Assine, verão de 1938; Atenas, janeiro de 1940.
                                    Tradução de José Paulo Paes



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25 outubro, 2011

A flor, o livro, o rio...





O escritor grego Nikos Kazantzakis deixou registrado que via sua obra como “um rio que flui em direção ao futuro”. Sempre gostei da analogia, e como jamais estudamos e lemos um autor por acaso (e vocês sabem que meu autor ao qual me dedico é Kazantzakis), eu me vi mergulhada nesse rio. Neste outubro, estive no Chile (Santiago) para participar de um congresso de estudos gregos. Fui convidada para falar de... (é claro) Kazantzakis. E escolhi tratar dessa metáfora do rio, pensando sobre a relação de Kazantzakis com o momento histórico.
Mas o congresso não foi propriamente de estudos. Foi de mergulho. Sem saber que estava imersa nas águas de Heráclito, de Guimarães Rosa e de Kazantzakis, distante das margens, me assalta a agradável e realmente inesperada surpresa. Um amigo que eu já conhecia do Centro de Estudios Griegos, Bizantinos y Neohelénicos chega, no primeiro dia, e me diz que tinha algo importante a contar.
Seu relato foi me deixando de boca aberta e emocionada, enquanto a correnteza se ria de mim. Ele – Miguel Saldías Vergara – havia traduzido meu singelo conto infantil FLAUIS para o espanhol, com o intuito de que sua filha de 6 anos Leonarda Amanda Saldías Fernández o apresentasse em sua escola BAU para os coleguinhas. E a grande epopéia se deu. Miguel realmente traduziu o texto, escaneou as imagens, montou um Power point, a menina o apresentou na escola (junto da mãe) e ainda levou um vaso com terra e semente para as outras crianças plantarem e darem um nome à sua flor. Como negar que uma obra abre um fluxo de rio para o futuro?
Abaixo compartilho uma parte do texto no idioma castelhano e as fotos da apresentação.
Leonarda Amanda Sandías Fernández
FLAUIS
Carolina Bernardes
         Flauis es esta pequeña flor que vive en un vaso en el jardín de mi casa. Fui yo quien dió ese nombre a ella. Converso con mi amiga todos los días, y eso comenzó luego que mi mamá la trajo a vivir con nosotros. ¡Y la Flauis me cuenta cada historia!
         La Flauis vivió en un montón de lugares y me dice que no fue siempre una flor.
         Hubo un tiempo en que Flauis volaba sobre el viento y sentía la libertad, danzando para allá y para acá, entre nubes y estrellas. Vió las ciudades y las montañas, vió plantaciones, animales y gentes andando sobre las tierras de la tierra.
         Porque Flauis podía ver todo desde arriba.
         En ese tiempo, Flauis era una semilla cargada por el viento.
         Un día, el viento paró de soplar a Flauis y cayó desde lo alto a un pedacito de tierra.
         Su casa ya no era más el viento y ahora ella podía ver todas las cosas con los ojos desde abajo y observó alto, tan alto… a las estrellas más distantes. Mas Flauis gustó de la tierra, era fresquita y la abrazaba llena de amor.
         No sentía ausencia de sus amigas estrellas, porque venían a visitarla todas las noches, junto a la luna. La noche era tan bonita y ella nunca la había mirado!
         Y cuando el día llegaba, la luz continuaba, más fuerte y muy amarilla.
         Tenía también un amigo muy poderoso, con brazos enormes y calentando todas las cosas con su cola. Él era el sol, quien hacía cosquillas a  Flauis. No sentía frío en los días de sol y su cuerpo engordaba más y más.
         Muchas veces, el sol se iba para descansar de tanto trabajo. Y la lluvia venía, linda y brincadora, para hacerle compañía.
         La lluvia viajera contaba historias de mares y tierras distantes, donde los pueblos hablan otros idiomas. Ella cantaba músicas de amores y de alegrías de otros mundos que conocía.
         El cuerpo de Flauis engordaba más un poco con aquel baño cantante.
         Flauis sabía que estaba mayor y sentía ganas de estirarse toda, de abrir los brazos, y de plantar los pies sobre la tierra. Y sus piernas comenzaron a aparecer y descender hacia dentro de la tierra. Conoció a los nutrientes, granos pequeñitos y somnolientos que se aproximaban para dormir en sus piernas. Flauis gustaba de ellos, porque también tenían el poder de hacerla engordar un poco más. Sus brazos ya danzaban al aire y la transformaban en una semilla alta y alegre.
         Flauis conquistó un nuevo amigo. El llegó un día, cerca de ella, la tocó, la quiso y habló con ella.
         “Como está alegre hoy, amiga pequeñísima! Voy a cuidar de ti para que el mundo sea más bello.”
         El hombre comenzó a verla todos los días, trayendo agua y amor.
         Flauis gustó de él, era un amigo diferente, nuevo, con las manos llenas de flores!
         Las hojitas en sus brazos ya se abrían como manos verdes de esperanza. Su cabeza comenzaba a erguirse colorida de pétalos.
         El buen jardinero, satisfecho con su florecer, dio un regalo a Flauis; una casa roja con bolitas blancas. Tan graciosa!
         Con todo el cuidado, el jardinero colocó tierra en la casa, retiró a Flauis del terreno en que vivía y la plantó en su nueva morada. Ahora, la pequeña flor también podía pasear, conocer otros lugares, siendo llevada por el buen jardinero. Pasó a vivir en la terraza de la casa. Había música y conversaciones de gentes.
         Alimentándose de agua y sol durante el día, en la noche, en cuanto todos dormían, Flauis sentía las gotas del agua y los pedacitos de sol andando dentro de sus hojas y tallos. (fragmento)







O tradutor: Miguel Saldías Vergara

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12 junho, 2011

Dona de Casa





                Maio foi um mês incomum. Não ganhei na Loteria, não nasceu nenhuma criança em minha família, ninguém adoeceu ou morreu (isso foi em abril). Tampouco me telefonou o editor da Companhia das Letras ou meu livro chegou aos finalistas do Prêmio Portugal Telecom, pois nem mesmo concorri. Por outro lado, coisas iguais continuaram idênticas: limpei muita casa, cozinhei muito arroz com batata, passei uma montanha de roupas que persiste nas alturas; cerveja, novela, casa-escola-casa, supermercado, sono, soneca, sesta, preguiça-culpa, telefone que não para mais, olhares enviesados e palavras tortas, tarô e uma carta por dia...
                Situações repetidas e ações costumeiras misturadas ao incomum. Pra começar, um convite inusitado para estar em João Pessoa-PB na Semana José Lins do Rego. O convite veio de um amigo especial, o escritor Tarcísio Pereira, que eu conhecia só por troca de e-mails. A escritora viajaria para o Nordeste. Além disso, outro convite inesperado chegou de outra amiga virtual: escrever resenha do livro Devaneios Literários de Mariana Collares. Uma honra! Entre tantos afazeres, surgiu, ainda, a possibilidade de concretizar o projeto de curso de Escrita Criativa em Ribeirão Preto. O projeto está em germinação e, em breve, divulgarei novidades. Teve mais: entrei na programação do 11ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, minha foto na revista, com data certa para minha apresentação. Sessão de autógrafos no stand dos Autores Locais, com a presença ilustre de Lya Luft. No fim, um convite para voltar a trabalhar no COEM (Centro de Orientação e Educação Mediúnica) – no Centro Espírita Cáritas.
                O resultado disso tudo? Correria. Dois artigos no Benfazeja e a resenha de Mariana: tudo ao mesmo tempo. Preparativos da viagem. Presença em alguns eventos na Feira do Livro. Casa arrumada para quem ficou. Corre-corre e lá estou de frente para o mar em uma das cidades mais bonitas deste país.
                Na volta, sofrendo um choque térmico, do calor para o frio intenso de São Paulo, corre-corre, no mesmo dia, para a Feira do Livro. Minha participação no Salão de Ideias (com vídeo já disponível no Youtube).
 E junho, como andam as coisas? Projeto de Escrita Criativa, Benfazeja, estudos acadêmicos para preparar a conferência que darei em agosto no Chile. Mais trabalho... Será que dou conta? E veio o Apocalipse, sujou a casa três vezes, limpei cinco.

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24 maio, 2011

MAYA - Retalhos de Escrita Épica





    Mais alto subia a cada nova criação. Os primeiros sentimentos sempre lhe
acorriam como os mais inspirados. Escrever sobre os impulsos que lhe
assaltavam a alma parecera-lhe sempre a atitude mais verdadeira, fiel ao que
de fato transitava ou emanava de si. O apuro dos traços e as inscrições
posteriores suplantavam a originalidade e a fotografia do instante. Os
borrões se afundavam em uma caixa, esquecidos, para a duração da cópia, do
outro de si – do outro de fora.
  
E, irrefletidamente, aumentava a intensidade dos rabiscos, ora a olhar o céu,

ora ao centro, onde as chispas de ouro mais a assombravam. E o deleite do

após, com a soma das palavras, eram a pura revelação da maravilha e da

ignorância de si. Que outro habitava sua fornalha?... se o lance é imanente... e

se o evento enlaça o entorno e o remoto...





Nota do SótãoEste é outro retalho de livro. Um livro muito querido, que pretendo terminar um dia. Texto e personagens vivem encubados em mim. Já tentei continuar, mas não encontrei a linguagem adequada.
Publicar aqui me leva a enteder o que presta e o que deve ser relegado ao báu de retalhos, que servem apenas para a posteridade.
Parei de escrever este livro pois não gostei da linguagem. Épica demais.
Mas, então, eu só sabia escrever assim.
Continuo sem saber se tem serventia ou se é puro esquecimento.


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20 maio, 2011

Retalhos de Outrora - um exercício de escrita






                 A tela do computador continuava branca, impávida. Maia poderia marcá-la, rabiscá-la, manchá-la. A página continuaria íntegra. Sem a impressão de um único arranhão. Ilesa. Por isso destemida. Queria perfurar, derrubar a tinta no papel, estraçalhar, rasgá-lo em mil pedacinhos. A tela invencível. Precisava escrever algo para a aula de Beto Candice. A música inspiradora não estava adiantando. Às vezes brigava com as palavras. Não vinham, não formavam correntes, não cresciam em idéias. As mãos vermelhas. Suas mãos continuavam brancas como a tela. Água. Precisava dedilhar sobre a dominação. Os dedos. Dominação. Autoridade. Autor. A barriga continuava a tremer. A água foi providencial. A serpente domina o pobre do sapinho com seus olhos vermelhos. Vermelho. Ou enfeitiça? É o mesmo? Elevar-se. Influenciar. Ou conter-se. Instintos. A cobra não domina os próprios instintos, usa-os como arma. Bang. O chão. Aquele rosto por cima. Ele a devoraria se já não dominasse os instintos? O feitiço. A presa. O poder. A supremacia. Ali, estendida no chão... sentada... era a presa. E seria tão bom ser devorada. O pobre sapinho esperou, obediente, paciente. A boca enorme, a vontade enorme. O beijo enorme. Não foi devorada, mas o feitiço... vivo o feitiço.
                      Nada sairia naquele momento. Era melhor desligar tudo porque sua mente divagava. O encantamento não combinava com o pensamento lúcido. Já havia sentido o efeito outrora, não se lembrava que impedia o curso normal da vida, o bom desempenho das atividades diárias. Que forma protocolar de dizer! Mas queria voltar ao seu estado normal. Estado de liberdade. De fazer coisas sem pensar em outras. Com a alma dominada, atada a outra alma, seu pensamento não era incisivo, sua força não era superior a si mesma. Voava. E parecia permanecer em estado de enlevo. A vontade imensa. Não sabia do que exatamente. De beijar... de estar perto... de que as coisas fossem diferentes... de que aquele beijo pudesse ter acontecido... de que o amor não existisse! O não-amor era mais seguro. Mas feitiço e amor podem se confundir? O que estaria sentindo? Precisava definir? Seu coração precisava disso? Nem sempre as respostas eram bem-vindas. E ainda tinha a sombra de não ter feito o trabalho de literatura. Até amanhã deveria pensar em algo.


O fragmento é parte constituinte de um projeto de livro inacabado, 1999.

Nota do Sótão: Neste ano, nasceu a pequena Rebeca,  e eu concluía a graduação. Era mãe de duas pequenas loiras, de olhos claros. Eu não era ninguém. Simplesmente atada às escolhas anteriores. E, ainda assim, escrevi 52 páginas, amamentando, estudando, criando... sem rumo para o futuro. É uma loucura pensar que demorei tanto tempo para voltar a escrever. As condições também não eram lá favoráveis, mas nunca foram e eu escrei em 1999. Escrevi em 1995. Escrevi em 2003. Escrevi em 2008. E só em 2011, estou me colocando no rumo, no rastro do Centauro Amarelo.
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06 abril, 2011

Tirando o cheiro de mofo do armário




Ontem esfriou. Abri meu armário de roupas de inverno e tentei me agasalhar.Peguei uma vermelha - o cheiro era insuportável. A preta. A cinza. A lilás. Impossível sair de casa com tamanho fedor. Nem que fosse para comer cachorro-quente sentada na calçada...


Amanheceu - neblina e sol. Vimos um carro atropelando um motoqueiro. O homem estatelado no chão e a moto destruída. Meus olhos se encheram de lágrimas. Manhã estranha de neblina.


Pendurei minhas roupas de inverno preferidas no varal - para tomar sol. Lindo sol de outono, sem inferno astral. Todo o cheiro foi embora. Não dá para estender o armário no varal.


Cortando batatas para fazer tortilha, senti a aproximação. Veio de perto, conhecida, antiga. A montanha, a faculdade, os amores, as esperanças, o centauro, a iluminação - tudo misturado, amalgamado em única sensação. Voltou do estrangeiro, das zonas escuras, da imensidão invisível. "Eu sou a noite a quem a luz devora" (Kazantzakis)


No telefone, uma história trágica. Mãe e dois filhos no carro. Estrada. Desviar de um cão atravessando. Carro capota. Crianças são arremessadas. Mãe sai ilesa.


                             Para tirar o cheiro de mofo do armário, compre essência de alfazema (encontrada em lojas de perfumaria). Misture um vidrinho de essência (8 ml) em 2 copos de água e coloque em um borrifador. Semanalmente, passe em seu guarda-roupas, deixando as portas abertas por um tempo. Não há problema que a solução entre em contato com as roupas.


ALGUÉM TEM AÍ UM VIDRINHO DE ALFAZEMA PARA ME ARRUMAR?



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31 março, 2011

Por onde anda a autora do BLOG



Nem sempre é possível manter a rotina de postagens no blog como eu gostaria. Felizmente, os interregnos de distância do RETALHOS E EPOPEIAS não ocorrem por desânimo ou desinteresse, tampouco deixo de visualizar diariamente o blog em busca de novos comentários, seguidores e visitas. Tenho publicado pouco por aqui, pois estou produtiva em outro espaço e situações. Vejam por onde anda a autora deste blog:

Coluna Benfazeja:

Agora com postagens duas vezes ao mês (dia 10 e dia 20), sempre discutindo sobre a arte de escrever Literatura. O próximo artigo – 10 de abril – trará uma análise sobre a Literatura Infantil, em comemoração aos dias Internacional e Nacional do Livro Infantil.

Tradução:

Estou traduzindo dois artigos de pesquisa acadêmica do Português para o espanhol a serem publicados na Revista chilena Byzantion Nea Hellás.

SESC:

Neste mês, farei um bate-papo com vestibulandos e interessados em Literatura a respeito da obra Memórias de um Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida. Dia: 06 de abril, às 20:30 horas.

Autoria:

Escrevendo novo conto para participação em concurso literário.

Participação em Programa de Televisão:

É isso aí. Neste próximo sábado – 02 de abril – estarei no programa Sala D Visitas com Dulce Neves, falando sobre Literatura Infantil e meu trabalho com a obra FLAUIS. O programa comemora o dia Internacional do Livro Infantil, que homenageia Hans Christian Andersen. Não deixem de assistir.

Onde: TV Clube (Band).
Quando: sábado (02 de abril) às 11:30 horas.

Quem não mora na região de Ribeirão Preto terá a oportunidade de ver o vídeo no Youtube e mesmo aqui no Retalhos.
A foto abaixo foi tirada momentos antes da gravação:



Participação no Ponto de Leitura:

E no domingo, ainda comemorando o dia Internacional do Livro, estarei no Parque Maurílio Biagi, em Ribeirão Preto, a partir das 10 horas, conversando com os pais sobre Literatura, Leitura e crianças. O Ponto de Leitura é um projeto criado pelo Instituto do Livro, que envolve contadores de histórias, declamações, varal de poesias, rodas de leitura, folhetos de poemas, concursos literários, cafés filosóficos e também um espaço para os nossos autores locais e regionais, onde a população terá a oportunidade de estar próxima ao seu autor.
O Ponto de Leitura é também um espaço de troca de livros, em que os autores e autoras têm um papel fundamental, participando e motivando a leitura, a formação de novos leitores e principalmente, novos autores.

Feira do Livro de Ribeirão Preto:

Nesta 11ª Feira do Livro, os autores de Ribeirão Preto participarão do Salão de Ideias. Carolina Bernardes fará apresentação no dia 05 de junho a partir das 13:30. Aguardem maiores detalhes.
Para acompanhar notícias da Feira, acesse: http://www.feiradolivroribeirao.com.br/

E aguardem novidades no BLOG. Muitas ideias saltitantes!


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24 março, 2011

CELEBRAÇÃO

Imagem: Bianca Bloom.
Integra a obra A Clarideia de Percival de Carolina Bernardes


Está chovendo em minha cidade há mais de vinte dias. As pessoas já se cansaram. A roupa no varal não seca, a casa cheira a tudo menos coisa boa, as mesas na calçada dos bares sem nenhuma alegria.

Mas hoje, estou amando esse dia nublado, que molha minha janela, lava meu quintal e clarifica minha alma. Uma passagem de meu livro FLAUIS é reveladora deste significado:

“A chuva faladeira contava histórias dos mares e das terras distantes, onde os povos falam outras línguas. Cantarolava as músicas dos amores e das alegrias de outros mundos que ela conhecia.”


Outra passagem sobre a chuva, em meu livro A CLARIDEIA DE PERCIVAL:


“E a chuva começou a gotejar. Pingo atrás de pingo, a Terra foi se molhando. Os pensamentos todos voaram e foram lavados pela chuva, só a alegria permaneceu, pois no ciclo da natureza, este era o momento da renovação, em que a terra se fortifica para brotar novamente.
Completamente molhadas e felizes, as crianças não agüentaram ficar paradas, queriam brincar, correr, se lambuzar na terra e dançar com a chuva da esperança. Abraçaram-se, correram, riram, pularam nas poças formadas na grama, subiram nas árvores, sacudiram galhos para molhar ainda mais o companheiro, ouviram o som do trovão sem medo.”

É com esta mesma alegria que sinto a chuva hoje. Enquanto olho para meu espaço interno, aquele onde todas as coisas são reais, sem velhos hábitos e padrões. Estou nascendo de novo. E esta chuva é a minha festa de aniversário.

Não espero que me enviem presentes. Que me cumprimentem. Que me procurem para dizer que sou querida. Estou aqui, eu vim, eu quero.
 Quero estar exatamente onde estou, com minhas idéias, meus animais aninhados em minha cama, enquanto redijo palimpsestos e caligramas pelo meu corpo. Quero estar com os ouvidos atentos ao invisível, o olhar perspicaz ao que não sou. Quero apreciar a flor de lótus que emerge de um caos profundo, enquanto danço. Simplesmente danço e agradeço por gostar de estar aqui, neste pequenino espaço, com janelas molhadas, frases inacabadas e a memória de inscrições antigas que se perderam... fragmentos valiosos de quase-nada. Seja bem-vindo à minha festa. Não ofereço bolo, doces e música alta.
Ofereço apenas a CLARIDEIA.

“Olhe para a vida: você vê tristeza em alguma parte? Você já viu uma árvore deprimida? Você já encontrou um pássaro movido por ansiedade? Já viu algum animal neurótico? Não, a vida não é assim, absolutamente.”

“A inocência de uma vida plenamente vivida tem um quê da sabedoria e da aceitação do milagre da vida em eterna mudança”.
OSHO
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10 fevereiro, 2011

AOS AMIGOS!





Esta postagem não traz poesia nem prosa, não fala de textos e nada elabora. Simplesmente um olhar de agradecimento lançado aos companheiros diários da escrita. Não quero escrever, não quero criar, nem tampouco inventar. Venho apenas, simplesmente, abraçar. Obrigada, queridos amigos, que cuidam de maravilhosos blogs, cheios de vida e vontade de comunicar. Diariamente, os encontros, as visitas, os comentários – daqui e dali – em um só clique. Entramos na vida e na casa uns dos outros, olhamos, perscrutamos, inquirimos, queremos mais e mais de cada novo amigo. E como é importante e delicioso receber uma visita, conquistar um novo seguidor ou receber um comentário!
Admiro muitíssimo o trabalho de todos vocês; o esforço é árduo e pleno: manter bons relacionamentos – entre idas e vindas de blogs a blogger – pesquisar, redigir, publicar. E a ajuda mútua, como não mencionar?
A cada dia na Blogosfera, cresço mais. Cheguei apenas no intuito de dar alguma disciplina à minha produção - sempre tão caótica, displicente e preguiçosa. A ideia era mais falar comigo mesma, imprimindo alguma ordem às tentativas de ser mais do que a professora de todos os dias. O Blog nasceu da necessidade de me ver além de mim mesma - escrevendo como deveria ser, como alguém me disse um dia que seria... Para ser é necessário fazer. Mas a surpresa foi descobrir que é impossível gritar e não ser ouvida. Vocês me ouviram e aqui estão ao meu lado. Descobri que a escrita é movimento, jamais pode ser represada no íntimo, no lápis, na gaveta, no baú, na pasta de arquivos tão bem armazenada. Para quando? Para a posteridade? Para as ruínas de meu túmulo? Ou, na mais esperançosa hipótese, para o editor-arqueólogo? Não vou mais guardar nada, pois, como disse a pequena filósofa Bianca: "Os pensamentos se vão para dar lugar a novos". O texto de hoje, inscrito como definitivo, é apenas a lousa mágica de nossa memória, é o traço que se apaga para a inscrição de outras e novas iluminuras, numa cadeia sem fim.

Como não manifestar este abraço tão merecido?




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LIVROS ESSENCIAIS

  • A Demanda do Santo Graal. (Anônimo)
  • A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy. (Laurence Sterne)
  • Ascese. (Nikos Kazantzakis)
  • Cem anos de Solidão. (Gabriel Garcia Marquez)
  • Crime e Castigo. (Dostoiévski)
  • Folhas de Relva. (Walt Whitman)
  • Húmus. (Raul Brandão)
  • Judas, o Obscuro. (Thomas Hardy)
  • Mahabharata (Anônimo)
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
  • Narciso e Goldmund. (Hermann Hesse)
  • O casamento do Céu e do Inferno. (William Blake)
  • O homem que comprou a rua. (Tarcísio Pereira)
  • O Perfume. (Patrick Süskind)
  • Odisseia (Kazantzakis)
  • Odisseia. (Homero)
  • Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. (Rainer Maria Rilke)
  • Peter Pan. (J. M. Barrie)
  • Poemas (Seferis)
  • Poemas Completos de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
  • Zorba, o grego. (Nikos Kazantzakis)

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