22 janeiro, 2012

O rei de Assine - Giorgos Seféris

        O poema "O rei de Assine" de Seféris é um dos meus preferidos de toda a literatura. Neste momento, especialmente, tenho estado novamente em contato com ele, pois as linhas de força de meu próximo romance aí se encontram condensadas. Creio que passarei uma longa fase viajando por Assine e em busca do rei que a história jamais lembrou. Apenas duas linhas inscritas na Ilíada o rememoram.


O Rei de Assine
Assíne te...
                                                                           Ilíada
A manhã toda olhamos em redor da fortaleza
a começar do lado da sombra, sítio em que
o verde mar sem brilhos, arnês de pavão morto,
nos acolheu como um tempo sem lacunas.
As estrias da rocha desciam lá do alto:
vinha nua e torcida, seus múltiplos sarmentos
reviviam ao toque da água e o olho a acompanhá-los
lutava por escapar ao fatigante embalo
cuja força ia sempre declinando.
Pelo lado do sol, uma longa praia aberta
e a luz a lapidar diamantes na muralha.
Nenhum ser vivo: as pombas, fugitivas,
e o rei de Assine, que há dois anos procurávamos,
ignoto, esquecido de todos, e de Homero
uma só palavra na Ilíada, mas dúbia,
ali deixada qual fúnebre máscara d’ouro.
Tocaste-a – lembras o som? – vazio dentro da luz,
jarro seco no chão escavado,
e o mesmo som no mar aos nossos remos.
O rei de Assine, um oco sob a máscara,
em toda parte conosco, conosco sempre, sob um nome:
“Assíne te... Assíne te...”
                            e seus filhos estátuas
e suas ânsias um tatalar de asa de pássaro e vento
soprando-lhe entre as cismas, seus navios
ancorados em porto indiscernível;
por sob a máscara, um oco.

Além dos olhos grandes, da curva dos lábios, dos anéis dos cabelos
inscrito no ouro que nos cobre a existência,
um ponto tenebroso viaja como peixe
em meio à calma matinal do mar, e ali o vês:
vai um vazio conosco a toda parte.
E a ave que se foi de
asa quebrada
a um refúgio de vida no outro inverno,
e a moça que fugiu para folgar
entre os dentes caninos do verão,
e a alma lamentosa buscando o mundo ínfero,
e o sítio, larga folha de plátano que o sol leva no seu fluxo
com os velhos monumentos e o pesar coevo.
E o poeta que se atrasa a contemplar as pedras pergunta a si próprio:
acaso subsiste,
entre estas arestas confusas, picos e cimos, ocos e curvas,
acaso subsiste
neste passo da chuva, do vento, da ruína,
subsiste o trejeito do rosto, a forma dos afetos
daqueles que estranhamente minguaram em nossa vida,
que ficaram como sombra nas vagas, pensamento no mar infindo?
Nem isso talvez deles sobrasse; nada, além do peso
ou nostalgia do peso de uma existência viva,
aqui onde ora estamos incorpóreos, pensos
como ramos de um salgueiro terrível, tombado sobre o vão do desespero,
enquanto, citrino e lento, o rio arrasta para o lodo juncos extirpados,
forma feita pedra em amargor perpétuo, pertinaz.
O poeta, um vazio.

Com seu escudo, o sol ascende, combatendo,
e do fundo da caverna um pávido morcego
inflete contra a luz qual seta contra o escudo –
“Assíne te... Assíne te”: ali estava o rei de Assine
que nesta acrópole com tal ânsia procuramos,
nossos dedos lhe aflorando o rastro sobre as pedras.
                                      Assine, verão de 1938; Atenas, janeiro de 1940.
                                    Tradução de José Paulo Paes



2 comentários:

  1. Boa viagem para Assine, e que memórias ocultas se revelem para o teu vasto caminho.

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  2. Ola, tudo bem?



    Há um ano atrás eu divulguei um poema meu intitulado CHE GUEVARA. Mais tarde recebi uma mensagem de um poeta português que pediu-me autorização para recitá-la junto a uma música andina.

    O resultado em (mp3) foi lançado no youtube. Eis o link abaixo. Quando puder dê uma olhada, ok?



    http://www.youtube.com/watch?

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