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Sou doutora em Literatura. Escrevo há mais de 15 anos, mas sem disciplina. Sou aquela escritora que se guarda para o futuro, à espera de um grande acontecimento. Sinto que chegou a hora. É com retalhos e epopeias que me inventarei - com pequenos e grandes eventos - com fragmentos e grandes feitos - serei a tecelã de uma história e a sua heroína. Serei Penélope e Odisseu. Me acompanhe nesta viagem! Colunista da seção de Escrita Criativa na comunidade literária Benfazeja. Livros publicados: FLAUIS (2010) e RETALHOS E EPOPEIAS (Editora Patuá, 2012). Mais sobre mim em meu site oficial

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Todos os textos são de autoria de Carolina Bernardes. A cópia não é autorizada e configura plágio. Tecnologia do Blogger.

25 outubro, 2011

A flor, o livro, o rio...





O escritor grego Nikos Kazantzakis deixou registrado que via sua obra como “um rio que flui em direção ao futuro”. Sempre gostei da analogia, e como jamais estudamos e lemos um autor por acaso (e vocês sabem que meu autor ao qual me dedico é Kazantzakis), eu me vi mergulhada nesse rio. Neste outubro, estive no Chile (Santiago) para participar de um congresso de estudos gregos. Fui convidada para falar de... (é claro) Kazantzakis. E escolhi tratar dessa metáfora do rio, pensando sobre a relação de Kazantzakis com o momento histórico.
Mas o congresso não foi propriamente de estudos. Foi de mergulho. Sem saber que estava imersa nas águas de Heráclito, de Guimarães Rosa e de Kazantzakis, distante das margens, me assalta a agradável e realmente inesperada surpresa. Um amigo que eu já conhecia do Centro de Estudios Griegos, Bizantinos y Neohelénicos chega, no primeiro dia, e me diz que tinha algo importante a contar.
Seu relato foi me deixando de boca aberta e emocionada, enquanto a correnteza se ria de mim. Ele – Miguel Saldías Vergara – havia traduzido meu singelo conto infantil FLAUIS para o espanhol, com o intuito de que sua filha de 6 anos Leonarda Amanda Saldías Fernández o apresentasse em sua escola BAU para os coleguinhas. E a grande epopéia se deu. Miguel realmente traduziu o texto, escaneou as imagens, montou um Power point, a menina o apresentou na escola (junto da mãe) e ainda levou um vaso com terra e semente para as outras crianças plantarem e darem um nome à sua flor. Como negar que uma obra abre um fluxo de rio para o futuro?
Abaixo compartilho uma parte do texto no idioma castelhano e as fotos da apresentação.
Leonarda Amanda Sandías Fernández
FLAUIS
Carolina Bernardes
         Flauis es esta pequeña flor que vive en un vaso en el jardín de mi casa. Fui yo quien dió ese nombre a ella. Converso con mi amiga todos los días, y eso comenzó luego que mi mamá la trajo a vivir con nosotros. ¡Y la Flauis me cuenta cada historia!
         La Flauis vivió en un montón de lugares y me dice que no fue siempre una flor.
         Hubo un tiempo en que Flauis volaba sobre el viento y sentía la libertad, danzando para allá y para acá, entre nubes y estrellas. Vió las ciudades y las montañas, vió plantaciones, animales y gentes andando sobre las tierras de la tierra.
         Porque Flauis podía ver todo desde arriba.
         En ese tiempo, Flauis era una semilla cargada por el viento.
         Un día, el viento paró de soplar a Flauis y cayó desde lo alto a un pedacito de tierra.
         Su casa ya no era más el viento y ahora ella podía ver todas las cosas con los ojos desde abajo y observó alto, tan alto… a las estrellas más distantes. Mas Flauis gustó de la tierra, era fresquita y la abrazaba llena de amor.
         No sentía ausencia de sus amigas estrellas, porque venían a visitarla todas las noches, junto a la luna. La noche era tan bonita y ella nunca la había mirado!
         Y cuando el día llegaba, la luz continuaba, más fuerte y muy amarilla.
         Tenía también un amigo muy poderoso, con brazos enormes y calentando todas las cosas con su cola. Él era el sol, quien hacía cosquillas a  Flauis. No sentía frío en los días de sol y su cuerpo engordaba más y más.
         Muchas veces, el sol se iba para descansar de tanto trabajo. Y la lluvia venía, linda y brincadora, para hacerle compañía.
         La lluvia viajera contaba historias de mares y tierras distantes, donde los pueblos hablan otros idiomas. Ella cantaba músicas de amores y de alegrías de otros mundos que conocía.
         El cuerpo de Flauis engordaba más un poco con aquel baño cantante.
         Flauis sabía que estaba mayor y sentía ganas de estirarse toda, de abrir los brazos, y de plantar los pies sobre la tierra. Y sus piernas comenzaron a aparecer y descender hacia dentro de la tierra. Conoció a los nutrientes, granos pequeñitos y somnolientos que se aproximaban para dormir en sus piernas. Flauis gustaba de ellos, porque también tenían el poder de hacerla engordar un poco más. Sus brazos ya danzaban al aire y la transformaban en una semilla alta y alegre.
         Flauis conquistó un nuevo amigo. El llegó un día, cerca de ella, la tocó, la quiso y habló con ella.
         “Como está alegre hoy, amiga pequeñísima! Voy a cuidar de ti para que el mundo sea más bello.”
         El hombre comenzó a verla todos los días, trayendo agua y amor.
         Flauis gustó de él, era un amigo diferente, nuevo, con las manos llenas de flores!
         Las hojitas en sus brazos ya se abrían como manos verdes de esperanza. Su cabeza comenzaba a erguirse colorida de pétalos.
         El buen jardinero, satisfecho con su florecer, dio un regalo a Flauis; una casa roja con bolitas blancas. Tan graciosa!
         Con todo el cuidado, el jardinero colocó tierra en la casa, retiró a Flauis del terreno en que vivía y la plantó en su nueva morada. Ahora, la pequeña flor también podía pasear, conocer otros lugares, siendo llevada por el buen jardinero. Pasó a vivir en la terraza de la casa. Había música y conversaciones de gentes.
         Alimentándose de agua y sol durante el día, en la noche, en cuanto todos dormían, Flauis sentía las gotas del agua y los pedacitos de sol andando dentro de sus hojas y tallos. (fragmento)







O tradutor: Miguel Saldías Vergara

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15 agosto, 2011

CURSO DE ESCRITA CRIATIVA



        Após alguns meses publicando artigos direcionados aos novos autores e aos que já possuem uma carreira consolidada, no site BENFAZEJA, venho anunciar a abertura das inscrições para o primeiro módulo do curso de ESCRITA CRIATIVA, a todos os interessados. Será um curso completo, com novos módulos em 2012. Aguardo vocês!





CURSO DE ESCRITA CRIATIVA


OBJETIVO: desenvolver a capacidade da escrita literária.
PÚBLICO-ALVO: Autores iniciantes e profissionais, que desejam aprender ou aperfeiçoar a escrita literária. Aberto a todos os interessados a partir de 15 anos.
LOCAL: Biblioteca da Escola Waldorf João Guimarães Rosa - Ribeirão Preto
DIAS: Todas as quartas-feiras dos meses de setembro, outubro e novembro (exceto feriados)
HORÁRIO: das 19:30 às 21:30
CUSTO: R$ 85,00 mensais com material incluso (alunos da Escola Waldorf pagam meia)
INSCRIÇÕES: a partir do dia 19/08/2011 com Gislaine pelo e-mail biblioteca@waldorfribeirao.org



MINISTRANTE: Carolina Bernardes, Mestre e Doutora em Estudos Literários pela UNESP; Escritora, premiada pela obra infanto-juvenil FLAUIS; Professora de Literatura no Ensino Superior/ Orientadora Educacional na UNICAMP; Autora da seção Escrita Criativa no site literário Benfazeja. Publica seus textos literários no blog http://retalhoseepopeias.blogspot.com



CONTEÚDO PROGRAMÁTICO: 1. O que é literatura 2. O que é escrever 3. A criatividade 4. As diferenças entre os gêneros literários 5. Intenções do autor e intenções do texto 6. Escrita automática 7. Criação de personagens 8. Desenvolvimento do estilo individual 9. O pensamento poético


ENDEREÇO: Rua Virgínia de Francesco Santilli, 81 - City Ribeirão - Ribeirão Preto - SP Telefone: 39164157 (Mapa da localização)


Maiores informações: Gislaine (biblioteca@waldorfribeirao.org) ou





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29 julho, 2011

AXIS


Controlar os sentidos e a imaginação... qualquer palavra, imagem ou conceito podem ser usados como centro. Uma flor, uma cor, uma dor. Não, sem dor. Só os olhos levemente fechados para não incomodar. Pulsar calmamente no ritmo do universo. A mente calada, o pensamento inexistente. Somente o corpo, puro e simples. Um corpo sem palavras. Não existe objeto tão macio que não sirva de eixo para o universo de rodas. Respirar no fundo obscuro do existir sem palavras. Sequência lógica dos quatro – um, dois, três... a virtude sufoca, na vida e na morte. O corpo pausado que deve certeiro naufragar. Quero fluir em harmonia com o universo, rumo ao sol. Um, dois... suave, pacífico, calado. Um corpo sem eixo. A roda da morte que gira como a roda da vida. Talvez o relógio. Da repetição surgirá o silêncio. Serve pouco, como o pingo de tortura do enclausurado. Fechar a mente, confiscar as palavras, as lebres da falação. Fala muito essa cabeça, o quatro que não chega, que não segue por 20 minutos. Contar a respiração confunde o suspiro. Como calar a boca de uma cabeça que é minha? Ser autoritário com quem se ama é falhar na relação. Um, dois, três... Talvez o mantra: estou em harmonia com o universo. De mim sai e do universo entra. Estou em harmonia com o universo. Movimento não é silêncio. Mantra continua a ser falação. Palavra pós palavra. Como o ritmo da respiração, não cala nada, flui, move, palpita. Só na morte há meditação?
O tempo acabou com o relógio contrariando o silêncio. Levantou-se do aconchego da poltrona, onde se mantivera com as pernas em lótus. Suspirou. Calçou os chinelos e seguiu para o tanque. Muita roupa branca e de cor, sem coragem de se misturarem na máquina. A cor pronta a manchar a pureza. Separou-as em seus montes específicos. As fáceis de cor, que respeitam a natureza alheia, mergulharam na máquina. Mas as puras impávidas precisavam das mãos cuidadosas. As encardidas de um esfregão de purificação. E as cheias de tintura por último, para não macularem o sagrado tanque. Suas mãos não eram as melhores para a esfregação, mas o serviço funcionava assim mesmo. Uma, duas, três, quatro. Uma duas três quatro. Umaduastrêsquatro. E a máquina rodando em eixo macio.




 
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15 junho, 2011

Salão de Ideias - 11ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto

 Não pude participar plenamente da Feira do Livro, comparecer ao Salão de Ideias dos companheiros de escrita local, pois acabo de chegar da Paraíba. Coincidentemente, aconteceu nesta semana em João Pessoa uma semana cultural e literária, em homenagem aos 110 anos de nascimento do escritor José Lins do Rego. Fui convidada exatamente para dar uma oficina para escritores, para pensar a escrita, oferecendo aos alunos presentes recursos de aperfeiçoamento de seu trabalho. Foi uma viagem emocionante – visitação ao engenho em que o autor viveu e o espaço que inspirou suas obras.

Um autor falar de si próprio é um problema, pois o autor escreve e é o leitor quem faz o papel de pensar a obra desse autor. Acho, portanto, que seria mais interessante aproveitar que não sou apenas autora, mas também alguém que estuda literatura e relacionar algumas idéias sobre a criação literária com traços da minha trajetória.  


1.      A trajetória de todo autor recebe influências de diversos contextos. Não se pode dizer que o autor fulano de tal teve influência de dois ou três autores. Pois somos formados por uma quantidade muito ampla de vozes, desde a infância. Diversas pessoas passam pela nossa vida – seja maneira real, seja por intermédio de leituras e, ainda, indiretamente, através dos discursos que circulam na sociedade. Octávio Paz: “Nossa voz são muitas vozes. Nossas vozes são uma só voz”

2.      Associado a isso, gostaria de afirmar que gostar de escrever é pouco. Saber escrever é pouco. Um escritor necessita de desenvolvimento. Isso pode vir através de estudos, mas principalmente da prática. Escrever, escrever, escrever.

A partir dessas duas considerações, poderia falar de minha trajetória.

Meus três livros são resultado da ânsia de ser publicada, de surgir como autora, já que esta foi a única coisa que realmente planejei para mim. São, portanto, livros esperançosos, tímidos, que buscam algum espaço no mundo das letras e dos leitores. Livros sem editora ainda. Mas o problema aí não está somente no fato de não ter ainda uma editora.
É preciso dizer que um autor nunca está pronto, não nasce marcado pelo dom e a partir dele terá condições de produzir com qualidade inalterável. Todo autor está em processo contínuo de auto-questionamento, desafiando sua própria obra e a sua maneira de escrever.
Portanto, por mais que eu ame os meus primeiros livros, por mais que sejam o retrato de minha luta, de minha superação das dificuldades, ainda assim, sei que estou em processo de aprendizagem da escrita.
Demorei para entender que o autor não nasce com um dom. Tive muitas falhas e percalços no caminho. Acreditava que o texto se faria naturalmente. Foram textos frustrados, imaturos.
Nessa trajetória de aprendizado, é evidente que descobri e melhorei muito com a infinidade de vozes que nos acompanha. Mas gostaria aqui de marcar duas importantes vozes:

Nikos Kazantzakis – o autor estudado no mestrado e doutorado, que me ensinou algumas coisas que eu já estava preparada para aprender: Muito pertinente mencionar nesta feira, que homenageia a Grécia. Sim, eu sou pesquisadora e estudiosa de um autor da Grécia moderna.
1.      A superação contínua e ininterrupta – nunca almejar o fim, o ponto de chegada. Mas aceitar heroicamente meus defeitos, falhas, fragilidades e continuar em transformação. Sabendo que haverá muitos tombos, mas que é preciso sempre continuar. Isso eu carrego intimamente comigo, tanto como tema de escrita e na linguagem, como em minha vida. Procuro ser aquela ao identificar uma falha, uma fraqueza, me coloco a pensar como posso ser melhor.
2.      A inexistência de um gênero literário puro – interação entre os discursos. Abertura que pretendo explorar mais profundamente em próximos textos.
Mas tenho aprendido especialmente com uma pessoa que acompanha de perto o meu trabalho. Talvez sem ele eu não tivesse chegado ao ponto em que estou hoje.
Não é um escritor ou um teórico da Literatura – mas bem poderia ser ambas as coisas. É um professor de Literatura. Com ele tenho longas conversas sobre Literatura e tenho a grande oportunidade de ser verdadeiramente lida. O meu professor de Escrita Criativa tem me ajudado a me tornar a autora que sou hoje e que ainda serei.
Permanece até hoje lapidando meu trabalho: me incentiva a exercícios de despersonalização, de experimentação da linguagem, de descoberta da simplicidade. Elementos que eu me atentava antes.
Toda a minha trajetória intelectual tem a voz de Rodrigo e de Kazantzakis, que são as mais próximas.

Aproveito para agradecer aos colegas escritores, que participaram do mesmo Salão de Ideias: Albino Bonomi e Dênis Bó. A maravilhosa mediação da amiga Eliane Ratier. E ao preciosíssimo empenho e organização do autor e médico Nelson Jacintho.

Para quem não teve oportunidade de comparecer, segue abaixo o vídeo com minha apresentação (parcial):




         
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12 junho, 2011

Dona de Casa





                Maio foi um mês incomum. Não ganhei na Loteria, não nasceu nenhuma criança em minha família, ninguém adoeceu ou morreu (isso foi em abril). Tampouco me telefonou o editor da Companhia das Letras ou meu livro chegou aos finalistas do Prêmio Portugal Telecom, pois nem mesmo concorri. Por outro lado, coisas iguais continuaram idênticas: limpei muita casa, cozinhei muito arroz com batata, passei uma montanha de roupas que persiste nas alturas; cerveja, novela, casa-escola-casa, supermercado, sono, soneca, sesta, preguiça-culpa, telefone que não para mais, olhares enviesados e palavras tortas, tarô e uma carta por dia...
                Situações repetidas e ações costumeiras misturadas ao incomum. Pra começar, um convite inusitado para estar em João Pessoa-PB na Semana José Lins do Rego. O convite veio de um amigo especial, o escritor Tarcísio Pereira, que eu conhecia só por troca de e-mails. A escritora viajaria para o Nordeste. Além disso, outro convite inesperado chegou de outra amiga virtual: escrever resenha do livro Devaneios Literários de Mariana Collares. Uma honra! Entre tantos afazeres, surgiu, ainda, a possibilidade de concretizar o projeto de curso de Escrita Criativa em Ribeirão Preto. O projeto está em germinação e, em breve, divulgarei novidades. Teve mais: entrei na programação do 11ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, minha foto na revista, com data certa para minha apresentação. Sessão de autógrafos no stand dos Autores Locais, com a presença ilustre de Lya Luft. No fim, um convite para voltar a trabalhar no COEM (Centro de Orientação e Educação Mediúnica) – no Centro Espírita Cáritas.
                O resultado disso tudo? Correria. Dois artigos no Benfazeja e a resenha de Mariana: tudo ao mesmo tempo. Preparativos da viagem. Presença em alguns eventos na Feira do Livro. Casa arrumada para quem ficou. Corre-corre e lá estou de frente para o mar em uma das cidades mais bonitas deste país.
                Na volta, sofrendo um choque térmico, do calor para o frio intenso de São Paulo, corre-corre, no mesmo dia, para a Feira do Livro. Minha participação no Salão de Ideias (com vídeo já disponível no Youtube).
 E junho, como andam as coisas? Projeto de Escrita Criativa, Benfazeja, estudos acadêmicos para preparar a conferência que darei em agosto no Chile. Mais trabalho... Será que dou conta? E veio o Apocalipse, sujou a casa três vezes, limpei cinco.

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24 maio, 2011

MAYA - Retalhos de Escrita Épica





    Mais alto subia a cada nova criação. Os primeiros sentimentos sempre lhe
acorriam como os mais inspirados. Escrever sobre os impulsos que lhe
assaltavam a alma parecera-lhe sempre a atitude mais verdadeira, fiel ao que
de fato transitava ou emanava de si. O apuro dos traços e as inscrições
posteriores suplantavam a originalidade e a fotografia do instante. Os
borrões se afundavam em uma caixa, esquecidos, para a duração da cópia, do
outro de si – do outro de fora.
  
E, irrefletidamente, aumentava a intensidade dos rabiscos, ora a olhar o céu,

ora ao centro, onde as chispas de ouro mais a assombravam. E o deleite do

após, com a soma das palavras, eram a pura revelação da maravilha e da

ignorância de si. Que outro habitava sua fornalha?... se o lance é imanente... e

se o evento enlaça o entorno e o remoto...





Nota do SótãoEste é outro retalho de livro. Um livro muito querido, que pretendo terminar um dia. Texto e personagens vivem encubados em mim. Já tentei continuar, mas não encontrei a linguagem adequada.
Publicar aqui me leva a enteder o que presta e o que deve ser relegado ao báu de retalhos, que servem apenas para a posteridade.
Parei de escrever este livro pois não gostei da linguagem. Épica demais.
Mas, então, eu só sabia escrever assim.
Continuo sem saber se tem serventia ou se é puro esquecimento.


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20 maio, 2011

Retalhos de Outrora - um exercício de escrita






                 A tela do computador continuava branca, impávida. Maia poderia marcá-la, rabiscá-la, manchá-la. A página continuaria íntegra. Sem a impressão de um único arranhão. Ilesa. Por isso destemida. Queria perfurar, derrubar a tinta no papel, estraçalhar, rasgá-lo em mil pedacinhos. A tela invencível. Precisava escrever algo para a aula de Beto Candice. A música inspiradora não estava adiantando. Às vezes brigava com as palavras. Não vinham, não formavam correntes, não cresciam em idéias. As mãos vermelhas. Suas mãos continuavam brancas como a tela. Água. Precisava dedilhar sobre a dominação. Os dedos. Dominação. Autoridade. Autor. A barriga continuava a tremer. A água foi providencial. A serpente domina o pobre do sapinho com seus olhos vermelhos. Vermelho. Ou enfeitiça? É o mesmo? Elevar-se. Influenciar. Ou conter-se. Instintos. A cobra não domina os próprios instintos, usa-os como arma. Bang. O chão. Aquele rosto por cima. Ele a devoraria se já não dominasse os instintos? O feitiço. A presa. O poder. A supremacia. Ali, estendida no chão... sentada... era a presa. E seria tão bom ser devorada. O pobre sapinho esperou, obediente, paciente. A boca enorme, a vontade enorme. O beijo enorme. Não foi devorada, mas o feitiço... vivo o feitiço.
                      Nada sairia naquele momento. Era melhor desligar tudo porque sua mente divagava. O encantamento não combinava com o pensamento lúcido. Já havia sentido o efeito outrora, não se lembrava que impedia o curso normal da vida, o bom desempenho das atividades diárias. Que forma protocolar de dizer! Mas queria voltar ao seu estado normal. Estado de liberdade. De fazer coisas sem pensar em outras. Com a alma dominada, atada a outra alma, seu pensamento não era incisivo, sua força não era superior a si mesma. Voava. E parecia permanecer em estado de enlevo. A vontade imensa. Não sabia do que exatamente. De beijar... de estar perto... de que as coisas fossem diferentes... de que aquele beijo pudesse ter acontecido... de que o amor não existisse! O não-amor era mais seguro. Mas feitiço e amor podem se confundir? O que estaria sentindo? Precisava definir? Seu coração precisava disso? Nem sempre as respostas eram bem-vindas. E ainda tinha a sombra de não ter feito o trabalho de literatura. Até amanhã deveria pensar em algo.


O fragmento é parte constituinte de um projeto de livro inacabado, 1999.

Nota do Sótão: Neste ano, nasceu a pequena Rebeca,  e eu concluía a graduação. Era mãe de duas pequenas loiras, de olhos claros. Eu não era ninguém. Simplesmente atada às escolhas anteriores. E, ainda assim, escrevi 52 páginas, amamentando, estudando, criando... sem rumo para o futuro. É uma loucura pensar que demorei tanto tempo para voltar a escrever. As condições também não eram lá favoráveis, mas nunca foram e eu escrei em 1999. Escrevi em 1995. Escrevi em 2003. Escrevi em 2008. E só em 2011, estou me colocando no rumo, no rastro do Centauro Amarelo.
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18 maio, 2011

O Limite do Infinito (que o fim seja finito)





Se eu não tivesse ventosas grudadas por todo o meu corpo, nadaria para o infinito. O infinito fica aqui perto. Tenho um buraco na parede, um pouco acima do limite de minha cama, por ele vejo traços retilíneos que se expandem numa gigantesca tela. Penso que é o sol. O sol mora no buraco escuro de minha parede. Pequenino. Tenho dedos muito grossos, já tentei tocar o sol com o dedo mínimo. Acabo fazendo cócegas em sua barriga. A criaturinha ri. Fico vexado por não ser criança, por não ter as mãos pequenas, por não ter aqueles brinquedinhos pequenos, com os quais poderia seduzir o sol de minha parede.
            Não posso mais contar aos outros que tenho um sol na parede, grudam-me mais ventosas pelo corpo.
            Perguntei ao sol se já havia mergulhado no mar. Ele me disse que um sol de parede nunca pode abandonar sua origem, que a cal e a areia são a sua morada. Mas aguardava, esperava que o mar fosse trazido pelo buraco na parede de uma casa vizinha.
            Perguntei se ele poderia pular para a outra parede e mergulhar no mar do vizinho. E à sua resposta, entendi que os raios que escapavam de seu calção de banho se encontrariam com as gotas d’água que escapavam das calcinhas espumantes. Ali, fora do buraco, como se realmente fossem livres. No intervalo da malandragem.
            Fiquei triste por conservar um sol em minha parede. Na vaidade de ser vírus e contaminar a luz. Eu queria aplicar ventosas no sol, nas águas do mar e, quem sabe, se tivesse sorte, na lua, nas estrelas... Meu sol ficaria fraquinho e o buraco de minha parede, finalmente, se apagaria. E eu não teria culpa. Poderia afofar meu travesseiro. Puxar as cobertas até cobrir minhas orelhas. Responder mal-humorado para os visitantes a minha porta. Agradecer a um ente qualquer pela dádiva de estar prostrado. Não pensaria mais em minhas ventosas, talvez nem mais as sentisse. Não desejaria nadar até o infinito. E tudo, tudo, pareceria tão calmo.
            Mas o solzinho continuava ali. Rindo de minhas cócegas. Um sol que esperava se banhar a um descuido do carcereiro. Ele não partiria, tinha gostado da minha parede. E eu já não o queria mais ali. Escolhi meu dedo mais robusto e furei o buraco, calquei com toda a dignidade, empurrei a luzinha para fora. Como uma rolha, destampei o buraco e o farejei com meus olhos curiosos. Meu buraco estava limpo, escuro, profundo.
            Não soube de seu fim. Não soube se chegou a encontrar o mar. Sei de mim. Continuei amigo de minhas ventosas. Um travesseiro fofo e amarelado para me recostar. Uma coberta certa para não me molhar dos respingos daquele mar que pulou para o meu quarto. Desta vez, o abrigo não era o buraco, já o havia tampado. O mar residia em minha xícara de café. Balançava, balançava e tingia de azul a água escura. Balançava e me chamava para plantar um barco de açúcar em seu infinito.


O conto integra a obra O CENTAURO AMARELO. Ribeirão Preto: publicação artesanal, 2003.
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16 maio, 2011

As múltiplas vozes do poeta



Este é o novo artigo de minha coluna sobre ESCRITA CRIATIVA no site Benfazeja.





Gostaria de compartilhar com o leitor a seguinte experiência: em algum momento já lhe ocorreu uma idéia especial, incrível, sensacional; e você recorreu a leituras para encontrar um argumento ou desenvolvimento para a idéia inicial; e então, eis que as palavras do outro lhe sacodem as entranhas, ditas exatamente como você gostaria? Creio ser esta uma cena comum e recorrente, mas foi exatamente o que se deu na elaboração deste artigo. O tema e a questão crucial já transitavam em meu pensamento; voltei-me às leituras em busca de ressonância da minha voz crítica em um autor de respeito acadêmico; pois não escrevemos nunca sem o diálogo com o outro. Mas as minhas palavras já estavam pronunciadas, meu ímpeto crítico encontrava-se plenamente desenvolvido em outro texto de sacudir as entranhas. Trata-se do ensaio “A Inspiração” de Octavio Paz, que integra a renomada obra O Arco e a Lira. Toda a tentativa de dizer algo diferente será infrutífera, assim como toda tentativa de desenvolver meu pensamento inicial será pura repetição. Comunico, portanto, que este artigo não tem nenhuma pretensão de originalidade e será um manifesto diálogo com Octavio Paz, com quem concordo amplamente.
A experiência relatada, que marca a criação deste texto, coincide com a discussão que aqui pretendo colocar. O autor de qualquer texto deveria se envergonhar por estar em diálogo aberto e declarado com um texto publicado anteriormente? Questão ainda mais incisiva: precisamos nos manter eternamente atados a essa angústia da originalidade? Na verdade, tudo que é dito ou escrito não pertence tão-somente àquele que enuncia; em nossos textos encontram-se vozes distantes, anônimas, impessoais e muitas vezes imperceptíveis. “No fluxo de nossa consciência, a palavra persuasiva interior é metade nossa, metade de outrem” (p.145), afirma Bakhtin. Se somos formados por esse aglomerado de múltiplas vozes, pensamentos, inscrições e discursos, não se pode almejar o estatuto da originalidade, seja em uma conversa cotidiana, seja em um texto literário.
Para Octavio Paz, “O homem é pluralidade e diálogo, concordando e juntando-se consigo mesmo, mas também dividindo-se sem cessar. Nossa voz são muitas vozes. Nossas vozes são uma só voz”. (p.202) O paradoxo encontro/separação do eu é a base natural que constitui o homem. Acreditamos na existência da individualidade, no sujeito que age, pensa, interpreta e produz por meio de suas próprias escolhas e desejos. Temos uma identidade civil, digitais exclusivas, corpo físico único (apesar das similaridades entre gêmeos e sósias), conjunto de experiências e formações distinto. É natural, portanto, imaginar que o autor seja uma entidade única, que leva ao texto seu EU pleno de significação e que a leitura seja a decifração deste Eu tão individual, específico, especial. No entanto, é preciso considerar que o homem não é um conjunto de forças adquiridas na oficina de seu SER, fechado em um mundo distante de todos, mas sim um nó de forças interpessoais, que se forma no contínuo jogo de relações entre o eu e o nós.
Dessa maneira, o homem é sempre ele mesmo e o outro.  Não é um mero observador da vida, das outras pessoas; não está diante da história, mas é a própria história humana, é o próprio mundo e os outros.  Se esta é a realidade humana, as palavras usadas pelo autor do poema, da narrativa, da crônica não estão dentro nem fora, mas fazem parte de seu ser – como eu e outro. A palavra literária não é exterior ao homem, pronta para ser captada pelo bom observador ou pelo gênio inspirado, nem tampouco um dom que o acompanha desde o nascimento, interior, escondido em sua consciência como um tesouro, mas algo que o homem faz e que reciprocamente o faz. Escrever é fazer e não revelar um mundo oculto em nós mesmos ou intermediar a mensagem do sobrenatural. Poesia vem da palavra grega poien, que significa “fazer, produzir, gerar, nomear”. O poema passa a existir somente a partir da ação de nomear do poeta e este somente é um poeta graças ao poema produzido; antes da ação de produzir o poema, o poeta não é nada. Escrever é, assim, uma possibilidade de ação, dentre as muitas formas de agir e ser no mundo.
Na constituição do autor já se encontra o outro e, ao mesmo tempo, as palavras que formam o outro.  “A inspiração é essa voz estranha que arranca o homem de si mesmo para ser tudo o que é, tudo o que deseja: outro corpo, outro ser”. (PAZ, p. 220) Assim, escrever é naturalmente a descoberta do outro em si mesmo e concomitantemente a reconquista do eu original e completo. Ao fazer este texto, meu eu encontrou-se no outro Octavio Paz.

Bibliografia:

BAKHTIN, Mikhail. “O Discurso do Romance”. In: Questões de Literatura e Estética: a teoria do romance. São Paulo: Unesp/Hucitec, 1988.
PAZ, Octavio. “A Inspiração”. In: O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
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15 maio, 2011

Próximos Eventos...



Compartilho com os leitores deste blog minha participação nos próximos eventos:


 Semana Zé Lins do Rego (31 de maio a 04 de junho)


         A Semana será composta de debates sobre o autor homenageado - José Lins do Rego - apresentações musicais, de teatro, contação de histórias, exposições, cinema, oficinas e palestras.

        A escritora Carolina Bernardes oferecerá a Oficina de Escrita Criativa (para quem quer escrever e ainda está começando), nos dias 01, 02 e 03.

Local: Espaço Cultural José Lins do Rego – João Pessoa-PB


Para se inscrever, acesse AQUI



11ª Feira do Livro de Ribeirão Preto




         

Já saiu a programação da Feira do Livro de Ribeirão.

       Minha participação será no Salão de Ideias, dia 05 de junho às 13:30.

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LIVROS ESSENCIAIS

  • A Demanda do Santo Graal. (Anônimo)
  • A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy. (Laurence Sterne)
  • Ascese. (Nikos Kazantzakis)
  • Cem anos de Solidão. (Gabriel Garcia Marquez)
  • Crime e Castigo. (Dostoiévski)
  • Folhas de Relva. (Walt Whitman)
  • Húmus. (Raul Brandão)
  • Judas, o Obscuro. (Thomas Hardy)
  • Mahabharata (Anônimo)
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
  • Narciso e Goldmund. (Hermann Hesse)
  • O casamento do Céu e do Inferno. (William Blake)
  • O homem que comprou a rua. (Tarcísio Pereira)
  • O Perfume. (Patrick Süskind)
  • Odisseia (Kazantzakis)
  • Odisseia. (Homero)
  • Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. (Rainer Maria Rilke)
  • Peter Pan. (J. M. Barrie)
  • Poemas (Seferis)
  • Poemas Completos de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
  • Zorba, o grego. (Nikos Kazantzakis)

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