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Sou doutora em Literatura. Escrevo há mais de 15 anos, mas sem disciplina. Sou aquela escritora que se guarda para o futuro, à espera de um grande acontecimento. Sinto que chegou a hora. É com retalhos e epopeias que me inventarei - com pequenos e grandes eventos - com fragmentos e grandes feitos - serei a tecelã de uma história e a sua heroína. Serei Penélope e Odisseu. Me acompanhe nesta viagem! Colunista da seção de Escrita Criativa na comunidade literária Benfazeja. Livros publicados: FLAUIS (2010) e RETALHOS E EPOPEIAS (Editora Patuá, 2012). Mais sobre mim em meu site oficial

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01 maio, 2011

Escrita Criativa: Inspiração e Transpiração

        





 O artigo abaixo foi publicado em minha coluna no site literário BENFAZEJA. Acredito ser interessante publicar aqui no BLOG também, para que possa chegar a mais pessoas. O intuito é ajudar os novos e velhos autores a aperfeiçoarem sua prática. Adoraria receber comentários e saber como pensam e quais outras discussões gostariam de encontrar no Retalhos e Epopeias.


Gostaria de inaugurar a seção de Escrita Criativa afirmando que talento não é o bastante para se escrever um grande livro e conquistar o apreço da crítica. Mais do que se fiar no dom ou vocação, é essencial aceitar que não se aprende tudo sozinho e por magia. Não quero com isso desmerecer a qualidade literária daqueles textos que parecem brotar de um lampejo único e inadiável, nem tampouco o conhecimento do autor. Também não é meu propósito defender a necessidade de formação em Letras, pós-graduação e pós-doutorado (todos os pós que existirem) nos diversos Estudos Literários para se produzir um texto respeitável. Muitos dos grandes autores não precisaram de escola alguma. O que afirmo é o seguinte: talento é imprescindível, mas sem trabalho árduo não se produz nada.
Assim como tocar qualquer instrumento musical, desenhar, dançar ou até mesmo dirigir um filme, escrever necessita de certo aprendizado e de ajuda. Aprendemos a escrever com a prática, com a repetição de tentativas e erros, com o sucesso e o deslize; em uma palavra: com a persistência. Mas esta prática que, no imaginário popular, isola o autor em seu escritório com vista para uma paisagem idílica, não é tão solitária. Obviamente exige seu momento de concentração e introspecção (como qualquer labor criativo), mas é intrinsecamente uma ação coletiva. De que maneira?
Nenhuma escrita nasce do vazio.  As idéias surgem da relação que todos mantemos com o mundo exterior, das trocas incessantes entre o eu e o outro. Ainda que a intenção do autor seja escrever sobre uma experiência íntima, sobre um aspecto de seus sentimentos e sensações, certamente essa experiência terá sido constituída em relação ao mundo de fora. Ninguém sente sozinho, ninguém forma uma opinião sobre sua própria subjetividade sem o outro como parâmetro. As idéias surgem também do que fica em nós das coisas que apanhamos no dia-a-dia: uma frase dita por alguém, um rosto visto na rua, um filme, a leitura de livro. Todos esses exemplos têm em comum a existência de um outro. Portanto, a escrita literária se caracteriza pela interrelação contínua.
É ingenuidade não levar em consideração que vivemos em um mundo formado pela linguagem e pela cultura; nascemos em um mundo pronto e organizado – padrões, língua, significação das palavras, cultura, hábitos sociais, discursos sedimentados que formam a nossa visão de mundo. Esses elementos formadores do sujeito nada têm de individuais, porque são a formação do coletivo. Muitas vezes, o texto se escreve sozinho. Você já deve ter vivido a experiência de escrever um texto (ou partes dele) e ser surpreendido pela sensação de que não foi escrito por você, ou de não reconhecer sua identidade literária (estilo) naquela reunião de frases. Fica a pergunta: “Será que escrevi mesmo este texto?” Nesses momentos, em que o texto se torna irreconhecível, a escrita, a linguagem e a formação cultural ultrapassam as intenções do autor. As forças do inconsciente, do coletivo, atuam no processo de escrita; pois o sujeito não é apenas o que escolhe ser (e, portanto, escrever), mas principalmente o que o mundo fez dele.  A escritura se organiza pela composição das escolhas do autor – os procedimentos intencionais – e das linhas de força inconscientes que ele carrega como bagagem.
Escrever é, assim, dialogar permanentemente com o discurso formador do indivíduo/coletivo, em movimento dialético: da leitura para a escrita e da escrita para a leitura. Se a leitura de autores preferidos pode constituir e formar o horizonte de expectativas e a bagagem do indivíduo, levando-o a compor seu próprio estilo como autor, o texto produzido por esse mesmo autor estabelece um diálogo com as leituras precedentes e inaugura nova comunicação com o leitor futuro (que também faz parte do discurso coletivo). Portanto, nenhum escritor é autosuficiente, independente e original; ele simplesmente está inserido na cadeia interdependente de todos os seres, que perpetua o jogo de retomadas, repetições, revisões e reavaliações de significados.
Retomo agora a questão da escrita como trabalho árduo.  Se o autor não aprende sozinho e por magia, e se a escrita se realiza pelo intercâmbio entre o conhecimento do indivíduo e a formação coletiva, não se produz um texto por inspiração, como se o autor fosse um ser especial, iluminado, eleito de Deus ou aquele que tem o dom de lançar a ponte entre o mundo natural e o sobrenatural. Sim, há a porção inconsciente que atua no processo, há as idéias que surgem como lampejo sem serem perseguidas, há o momento epifânico, a iluminação perfeita. É evidente que sim, mas e depois? Como escrever? Como se desencadeia o espírito criativo? Como usar os lampejos? Como tornar o mundo abstrato, situado na mente, em algo palpável, concreto e reconhecível pela linguagem? Não é o drama de todo autor? Seria, portanto, demérito necessitar de alguém que o auxilie nesse trânsito entre o amorfo e o texto organizado e coeso? Entre a idéia e o livro nas mãos do leitor?
A inspiração se configura pelo entusiasmo criador, pelo surgimento espontâneo da criatividade e da vontade de expressar. Mas, para tornar-se ato, para revelar o que é ainda (e apenas) o ímpeto em potencial, é necessário o veículo da manifestação, ou seja, transpirar. Trans- significa “através de”, portanto é o veículo da expressão, da revelação; é o deixar surgir, propagar, divulgar, manifestar. É preciso suar para fazer nascer a idéia especial, lavrada na mente. O movimento é análogo ao da respiração: inalar e exalar. O autor enche-se de hálito, de sopro, de ar criativo, fecundando uma nova idéia, e em seguida, lança o engendro de si, devolve-o à atmosfera da criação.
O trabalho é, evidentemente, árduo e duas ações o tornam possível: persistência e aceitação de que a escrita é também intercâmbio entre o que o deve ser ensinado e o que autor aprende por si mesmo. Inspiração e transpiração!

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GIL ROSZA disse...

Concordo. Acho que hoje em dia é muito comum fazer confusão entre saber escrever bem e ser escritor. Não que ser escritor seja um dom divino ou nascer membro de uma casta seleta de seres mais inteligentes que a maioria da populção, não é nada disso. Acredito que o escritor tenha um compromisso com as ideias e a linguagem ao produzir um texto. Talvez exista no escritor a intenção de provocar um “ferimento”, na atenção apática e conformista de um leitor que espera receber um cafunézinho, mas acaba recebendo uma porrada. Para isso, talvez seja preciso sim, chafurdar fundo em pesquisa! Se Deus é muito bom em escrever diários, certamente o Diabo é ótimo em escrever como um genial escritor.

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