Entardeceu com o olho inchado. Não era bem o olho, mas o canto do olho. Não tanto o canto, mais para o lado do nariz. Ali, neste ponto específico, nasceu uma bolota. Picada de inseto? Espinha rebelde? Inflamação sei-lá-de-que? E o negócio encarnou, criou raiz, apaixonou-se por aquele canto do olho-nariz. Deformou. Água quente na tigela de doce, algodão espremido no lixo. Mas a coisa inventou de ficar. Nem pomada, nem rabo de gato conseguiram convencer. E dizem que rabo de gato três vezes ao dia espreme qualquer bolota. Manhã: diminuiu? Tarde: melhorou? Noite: me traz a agulha que eu vou furar. Em meados do século passado, certo escritor recebeu de um discípulo de Freud o diagnóstico para suas bolotas na cara: moléstia do refúgio de pureza. Não foi no deserto estéril ou em uma caverna escura que o poeta massacrou sua carne para libertar seu espírito. A doença de santo, cravada em sua face, amansou sua alma. Bolotas em proporção de mulheres. Pústulas sebentas para afastar o pecado. E o homem de hoje, que não é poeta, nem procurou Buda em toda mulher, também foi ao médico. Pode ser a glândula lacrimal entupida. Vamos cortar. A seco, sem terapia. Sem firula do espírito. Só o bisturi abrirá o canal para a lágrima jorrar.
16 fevereiro, 2011
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Tenho uma Scully na cama, e também sei o que é ficar procurando (e preocupando) com alterações alienígenas num planeta de pêlos. E daí, a gente cheira a orelha, olha se tem fungo, se a rotina segue normal, um chamado esquisito a noite, se comeu ou não a lagartixa que usou como brinquedo, enfim... todas essas coisas que a gente sabe muito bem.
Oi, Carolina.
Como eu gosto de ler seus textos! Nossa! É delicioso... as palavras têm cheiros, sons, texturas, tem mesmo sabores...
E é maravilhoso poder vir aqui e me alimentar desta sua poesia em prosa.
Beijo grande, querida. :)
Que interessante, você fez um conto com uma coisa aparentemente tão estranha! Ficou muito bom, parabéns. Me encanta a capacidade de tornar coisas tão simples, em textos literários, belos.
Bom fim de quinta!
oI, Linda, tem gente que tem conhecimento e não aplica em nada, você o usa para tecer seu texto delicado e poético. Lindo. Gostei, seguirei, colocarei no blog e preciso de ajuda com o feed burner, por favor
UAU! Este blog é cheio de fricotinhos legais!
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