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Sou doutora em Literatura. Escrevo há mais de 15 anos, mas sem disciplina. Sou aquela escritora que se guarda para o futuro, à espera de um grande acontecimento. Sinto que chegou a hora. É com retalhos e epopeias que me inventarei - com pequenos e grandes eventos - com fragmentos e grandes feitos - serei a tecelã de uma história e a sua heroína. Serei Penélope e Odisseu. Me acompanhe nesta viagem! Colunista da seção de Escrita Criativa na comunidade literária Benfazeja. Livros publicados: FLAUIS (2010) e RETALHOS E EPOPEIAS (Editora Patuá, 2012). Mais sobre mim em meu site oficial

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19 novembro, 2010

EU NA TOMADA



O arroubo das lembranças é amaciado ao som de um aparelho elétrico. Rouco, barulhento. E quanto mais barulho, maior a calmaria. O som do ventilador tem um efeito alopático sobre mim. Um pequeno vício, que faz mal apenas ao bolso, totalmente estranho, por não combinar nada nada com a suavidade de que minha alma necessita. E, enquanto eu desvaneço com um roncar de motor, todo o ambiente em que me encontro se torna meu. A janela pode estar no lugar errado, os moveis podem não ser da cor com a qual sintonizo, posso ser um invasor completo em território alheio, e o ventilador será o meu situador, o meu surgimento e comparecimento à reunião comigo. Não sei se penso, não sei se o som marcante atiça meu raciocínio. Leve e solto, embrenho-me por qualquer assunto, e se eu sou eu, nesse instante torno-me todos os eus que, um dia, acredito ter sido. Talvez, a sintonia com o mundo externo, que o ventilador me possibilita, afaste o som queixoso da vivência humana. A vivência humana de estar sempre se questionando... E questionar não é o problema, o problema é descobrir as verdades. O que eu sou ninguém sabe. Eu mesmo, descubro-me aos poucos, e fico enlouquecido por não suportar a existência de tantas e tantas facetas. Não sei se tenho talentos, dons, vocações. Mas sou artista. Sou artista por desmembrar-me a cada nova situação. Espanto-me, sinceramente, com a proximidade das pessoas. Nem sempre as quero por perto, mas preciso disso. E busco, procuro a presença. Estou cansado por dentro, sinto-me reprimido diante da individualidade do outro. Reprimido e corro, corro voraz para pedir-lhe que me fale. Às vezes, não tenho nada a dizer ou a esperar, e eu me dou. Não sei se é aceitação ou amor. Espero ser amado? Mas amado de que forma? E por que ser amado? Coisa forte! Fale mais alto, ventilador, que o amor pode trazer lembranças e eu não as quero ouvir!
Comece pelos dedos e retome aos poucos a vitória de ser livre. Isso, passe seus dedos lentamente pelas folhas e sugue-as, lamba os beiços, enquanto mordisca a plenitude da existência que exala de uma planta. Comece pela ponta dos dedos e sinta a grande possibilidade de visualizar o amor passando em ondas sob seus olhos. Ateie fogo às florestas quando o amor já não mais lhe servir. E não pergunte, não pergunte se haverá uma aléia, ainda verdejante, ou azul, ou rosa, pela qual possa se atirar.
Meus dedos pegaram fogo quando toquei a face do amor. E ele não ficou só em meus dedos, subiu pelo braço, ardendo, como uma tocha amarela. Em algum momento, senti-me um homem-fogo. Eu podia simplesmente decompor-me na existência do oxigênio... Em algum momento, botei a cara para fora e enxerguei o hidrogênio. Juntei-me a ele. E então, seguro, descobri o que era o amor, falei com o amor e visualizei sua sinfonia.
E agora me lembro que não tenho vontade de ressentir o amor. Não porque ele cause o sofrimento eterno, mas por ser tão impuro que eu não possa sentir o amor completo. Ou puro.
Estou tão ansioso, o telefone não toca. Ela não costuma sumir assim. Não, eu não vou. Sem ela não dá para ir. Todos vão me olhar, medir, e, de repente, eu terei de ir embora, péssimo. Não posso ficar sem suas palavras, suas mãos segurando a minha. É provável que eu nem consiga o emprego... Sem ela, eu não existo, perco o movimento, perco meus dedos de fogo. Mas... será que ela não me quer mais? Será que encontrou alguém? Não, não pode. Eu morro. Ah, estou cansado. Não quero mais sair. Vou esperar que ela me ligue amanhã. Estou sem forças, estou muito cansado.
Eu eu eu eu eu. O amor é eu. Vou pedir mais uma vez, ventilador, grite, urre, mas não me deixe tão perto do amor. Não quero saber do eu. Quero saber do nós. E o amor não é plural... O amor é a primeira pessoa do singular. Não quero mais brigar para ouvir meu grito no espelho.
E ela é tão linda quando está sorrindo... Pena que, às vezes, fique tão ciumenta! Ela não poderia simplesmente me deixar livre? Bem que ela poderia gostar de ópera e não daquelas músicas dançantes horrorosas. Às vezes, gostaria que não falasse nada; às vezes, gostaria que falasse muito. Mas ela faz tudo na hora errada. Não me beija como eu quero, não me olha como eu preciso. E de repente, em centenas de anos, é a única que me coloca sentado na copa de uma árvore. Talvez, não sei, eu faça algo de especial a ela também. Por isso não nos deixamos. Por isso nos amamos.
Amamos?! É por isso que clamo pela distância do amor. A palavra é tão linda, a concepção, a idéia perfeita do amor plural. Quero distância por tocar o amor e pedir a ele que me seja devolvido. Quero distância por não saber comportar os defeitos e as qualidades. Quero distância, pois as lágrimas e o riso tentam se confundir, mas gladiam-se e apagam o reflexo de meu espelho. Eu. Sou eu. E tento ser mais do que eu. Às vezes, tento transpassar a fronteira. O eu sempre é mais forte. E você é linda. Não sei se é. Em alguns instantes, vislumbrei a sua idem tentativa de atravessar o portal. E assim é linda. É dessa tentativa que vem a minha força. E só por isso o amor é necessário.
Não, apague tudo, destrua esta folha. Não, não preciso do amor. Não preciso de você. De nós. Preciso de mim. Preciso do eu infinito. Ventilador, pare de falar, o amor já foi embora.

Publicado em: Antologia Literária. E por falar em Amor. Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2001.

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