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Sou doutora em Literatura. Escrevo há mais de 15 anos, mas sem disciplina. Sou aquela escritora que se guarda para o futuro, à espera de um grande acontecimento. Sinto que chegou a hora. É com retalhos e epopeias que me inventarei - com pequenos e grandes eventos - com fragmentos e grandes feitos - serei a tecelã de uma história e a sua heroína. Serei Penélope e Odisseu. Me acompanhe nesta viagem! Colunista da seção de Escrita Criativa na comunidade literária Benfazeja. Livros publicados: FLAUIS (2010) e RETALHOS E EPOPEIAS (Editora Patuá, 2012). Mais sobre mim em meu site oficial

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22 novembro, 2010

A MARCHA DE NIKOS KAZANTZAKIS








Nikos Kazantzakis viveu 74 anos de produção incessante e de experiências intensas. Sua vida foi permeada de vozes e a sua busca por respostas sobre a condição humana e a sua relação com Deus o fez aproximar-se de pensadores e figuras históricas distintos.
Filho de Creta, Kazantzakis nasceu em 1883, num vilarejo de nome Heraklion. Recebeu uma educação conflituosa de seus pais, pois estes discordavam na maneira de ensinar. Capitão Michelis Kazantzakis era homem temido e respeitado pelo povo simples da ilha, e aos filhos voltava olhares severos e poucas palavras. Quando, porém, o pai se ausentava, a mãe transformava a casa em alegria e falava de Deus, mas falava de um Deus punitivo, superior e vingativo. Essa visão apenas se abrandava com as histórias engraçadas que o avô contava sobre o paraíso. Nikos cresceu entre o medo e a fantasia.
Sua infância foi voltada aos estudos, sustendo uma preocupação em ser sempre o primeiro da classe. Desde cedo, debruçava-se sobre as leituras, na ânsia de encontrar respostas acerca das razões pelas quais o homem precisava sofrer tantas injustiças e qual o sentido da vida. O idealismo e o racionalismo não iluminavam de forma satisfatória suas questões. A religião e as ciências eram insuficientes para definir suas respostas.
Na juventude, experimentou os prazeres da vida material, e então decidiu entregar-se ao conhecimento científico, ingressando na faculdade de Direito em Atenas. O acesso fácil à cultura e à ciência, porém, não satisfizeram suas necessidades interrogativas, marcando por anos sua vida de solidão e desespero.
Em 1907, apresentou ao Concurso Literário Acadêmico a peça Desponta o Dia. Sua mensagem repousava sobre a necessidade de se reformar o mundo, suas injustiças e hipocrisias, e ainda indicava o bom caminho, a transformação do homem num ser mais moral. O estilo literário criativo e refinado granjeou-lhe o primeiro prêmio, mas a rebeldia de propor uma nova moralidade não agradou o meio universitário. Indignado, Kazantzakis recusou o prêmio e nunca mais pisou o recinto.
Partiu para a peregrinação pelas cidades gregas, sequioso em conhecer sua história. No Peloponeso ficou por três meses; esteve em Esparta, Olimpo, Delfos. Ressuscitou os antigos deuses, viu-os descer na paisagem antiga da Grécia. As viagens por seu país fizeram-no admirar o lendário aventureiro Ulisses.
Em rápida passagem por Creta, convenceu seu pai de suas aspirações de viajar, pisar em outras terras, comparar, e não se encerrar entre quatro paredes. Partiu e visitou espaços onde considerava poder encontrar alguma resposta. Percorreu os monastérios do Monte Atos com seu amigo, o poeta Angelos Sikelianos; juntos planejavam fundar uma nova religião. Iniciou suas leituras de Dante e de Buda. Apesar do interesse pela vida mística, Kazantzakis tinha olhos críticos para a hipocrisia e mediocridade dos padres.
Ainda em 1907, instalou-se em Paris. E esse foi o ano decisivo para dois importantes encontros intelectuais: com Henri Bergson e com Friedrich Nietzsche. Sobre este último, ele diria mais tarde: “Foi o instante mais decisivo de minha vida. Ali o meu destino havia preparado uma emboscada; ali me esperava, ardente, grande guerreiro coberto de sangue, o Anticristo”. (FEIST, 1972, p.203) Acreditou ter uma resposta para a sua busca, a de que só poderia esperar dos céus o silêncio e a indiferença.
Através de Nietzsche, Kazantzakis pode conhecer melhor o espírito helênico. O ideal dionisíaco de aceitação da vida em sua plenitude passou a ser corrente em seus escritos, como é o caso de Zorba, o grego, O Cristo Recrucificado, Os Irmãos Inimigos e Odisseia: uma continuação moderna. Em Zorba, o grego, Kazantzakis desenvolve a relação de atração e diferença, que tem como protagonistas os deuses opostos e complementares Dioniso e Apolo, representada pelo personagem Zorba e pelo narrador.
Já o encontro com Bergson veio-lhe como a bonança para o seu espírito perturbado de perguntas. As reflexões de Bergson revelaram-lhe que o destino do homem só depende da vontade, do próprio “impulso vital”. E assim, escreveria mais tarde: “Quando eu ouvia a voz mágica de Bergson, meu coração reencontrava a calma: suas palavras eram uma espécie de sortilégio envolvente, uma pequena porta que se abria no fundo da fatalidade”. (Idem, p.206)
Em 1910, retornou à Grécia e passou a dedicar-se ao trabalho de tradução e ainda engajou-se na campanha para a adoção do demótico como língua oficial do país, em lugar do idioma purista em uso, a katharévousa, uma tentativa de conservação das origens clássicas. Em 1911, casou-se com Galatea Alexiou, e, em sua parceria, passou a escrever livros infantis e biografias romanceadas para crianças.
O casamento, porém, não impediu que continuasse suas viagens: Suíça, Alemanha, Cáucaso, Iugoslávia, Áustria. Em 1917, conheceu George Zorba, seu capataz numa mina de linhita, homem simples, mas com uma profunda filosofia, facultada pelos ensinamentos da vida. Zorba seria depois seu assistente na repatriação dos gregos caucasianos e ainda, anos mais tarde, personagem de seu romance Zorba, o grego.
Kazantzakis passou a se interessar por política e foi nomeado pelo Primeiro Ministro Venizelos, em 1919, diretor geral do Ministério do Bem-Estar Social, com a função de repatriar 150.000 gregos hostilizados no Cáucaso pelos bolcheviques.
Passado esse momento político, já em Viena, em 1922, surgiu em seu rosto um eczema, não diagnosticado por nenhum médico. Um discípulo de Freud trouxe a luz ao caso e concluiu ser a moléstia de fundo psicológico, um refúgio de pureza encontrado pelo asceta em que se transformara. Afeito à doutrina budista, Kazantzakis considerava pecaminosas as relações com mulheres. A doença da purificação reaparece em seu romance O Cristo Recrucificado, desta vez na face de Manólios, o rapaz eleito pela comunidade para representar o papel de Cristo na encenação da Paixão.
Nos anos 20 descobriu o marxismo, apresentado pela poetisa Rahel Lipstein. Depois de ter experimentado Cristo e Buda, agora ele encontrava forças em um novo herói: Lênin. Como jornalista enviado, trabalhou em Moscou e participou dos festejos do décimo aniversário da Revolução de Outubro.
Após algumas desilusões políticas – a rejeição da proposta demoticista pelo Parlamento, a derrota do exército grego pelas tropas turcas na Ásia Menor, a queda de Venizelos e o assassinato do líder demoticista Dragoumis pela polícia de segurança – Kazantzakis decidiu viver fora da Grécia e entregou-se às viagens e ao trabalho da escrita.
Em 1922, iniciou os esboços de Ascese (Askitiki), tarefa que se prolongou até 1927, quando a obra foi publicada por um periódico grego. Em 1945, a obra recebeu o acréscimo de um capítulo – “O Silêncio”.
Em 1924, ele começou a esboçar um plano para a composição de uma continuação moderna da Odisseia de Homero. Já em 1925, os primeiros cantos foram escritos. Datam do mesmo ano seus primeiros contatos com sua futura companheira, Hélène Semiou. O casamento com Galatea findou um ano mais tarde, época em que também conheceu Pandelis Prevelakis, seu futuro discípulo, agente literário, confidente e biógrafo.
Suas viagens continuaram pelo Egito e Monte Sinai. Em seguida, decidiu isolar-se em Égina para concluir sua Odisseia e ainda compor artigos para enciclopédias e relatos de viagem, coligidos no volume Do Monte Sinai à Ilha de Vênus (Taksidevondas). Nos anos de 1928 e 1929, percorreu regiões da Rússia; a experiência obtida nesse país, que mudou sua visão de mundo, o obrigou a fazer uma revisão da Odisseia.
Nesses mesmos anos, sua carreira começou a se desenvolver na Europa. Na Grécia, a Igreja Católica Ortodoxa considerou Kazantzakis ateu pelas idéias expostas em Ascese. A proibição da publicação de seus livros em seu país o levou a residir em Paris e mais tarde em Nice, onde viveu da tradução de livros infantis do francês para editoras atenienses. Traduziu A Divina Comédia de Dante, Esta noite nós improvisamos de Pirandello e a primeira parte de Fausto de Goethe. Desempenhou também a função de jornalista correspondente pela Espanha, o que o levou a viagens à China e ao Japão.
Em 1936, pela primeira vez, Kazantzakis fixou residência; sua casa em Égina ficou pronta, e lá pôde terminar sua Odisseia, publicada em suntuosa edição em 1938. O eczema facial voltou a aparecer.
Com a invasão germânica na Grécia e na ilha de Creta, em 1941, Kazantzakis afogou suas mágoas no trabalho. A partir de então, surgem os primeiros esboços da peça Buda e inicia o romance Zorba, o grego. Permanece confinado em Égina até o final da guerra. Nesse período, começa a elaborar o esboço das memórias de Jesus, que mais tarde, receberiam o título A Última Tentação de Cristo. Trabalha energicamente, para afastar as privações causadas pela ocupação germânica. Escreve as peças Prometheus, Capodistria, Constantino Paleológos.
Com o final da guerra, pôde enfim, retornar à vida política, tornando-se líder do partido socialista e enviado pelo governo a Creta para verificar as atrocidades alemãs. Ainda em 1945, sua admissão na Academia de Atenas foi recusada por dois votos. Em novembro do mesmo ano, casa-se com Hélène Samiou, oficializando uma união de muitos anos.
Suas peças começam a ser representadas em vários teatros europeus, como exemplo o Royal Theater. Zorba, o grego é traduzido para o francês e para o sueco. A tradução de suas obras em diversos países foi facilitada após assumir um posto na UNESCO, posto ao qual renunciou um ano depois para dedicar-se inteiramente à escrita. A publicação de Zorba, o grego é aceita na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Tchecoslováquia. Os anos subseqüentes a 1948 foram voltados para uma produção intensa de peças e romances, entre eles O Cristo Recrucificado, Os Irmãos Inimigos e A Última Tentação de Cristo.
A carreira literária bem-sucedida ocupava todo o seu tempo, entre as traduções e as publicações em vários países, com exceção da Grécia. Se o sucesso aumentava, sua doença facial crescia junto. Internou-se em um hospital na Holanda, onde aproveitou para estudar a vida de São Francisco de Assis, personalidade que despertou seu interesse e amor.
Em nova internação, desta vez em Paris, no ano de 1953, os exames detectaram uma doença linfática causada, presumivelmente, pelo eczema que o acompanhava há vários anos. Mesmo ciente de sua doença, sua produção não parou. No mesmo ano escreve O Pobre de Deus, romance baseado na vida de São Francisco de Assis. Seu envolvimento polêmico com a vida mística resulta em acusação de sacrilégio pela Igreja Ortodoxa, que considera partes de Capitão Michelis (traduzido como Liberdade ou Morte) e o todo de A Última Tentação de Cristo obras contrárias às crenças e “verdades” da religião. Por esse motivo, suas obras ficaram proibidas de adentrar publicamente seu país natal. O Papa da igreja Católica Romana determina que A Última Tentação de Cristo faria parte da lista de Livros Proibidos. À Igreja grega, Kazantzakis respondeu: “Vocês me amaldiçoaram, santos padres. E eu lhes abençôo: fiquem com a consciência limpa como a minha, e tenham moral e religião tanto quanto eu tenho”.
Em 1954, após receber um prêmio na Alemanha por Sodoma e Gomorra, entra no hospital para tratamento, onde sua doença é diagnosticada como leucemia linfática. No ano seguinte, começa a traçar sua biografia espiritual, intitulada Testamento para el Greco.
Seu falecimento ocorreu em 26 de outubro de 1957, não antes de receber o Prêmio da Paz em Viena, não antes de assistir a festa de estréia do filme francês O Cristo Recrucificado, baseado em seu romance. Não pôde assistir, porém, a recusa da Igreja Ortodoxa em receber seus despojos em Atenas, tendo que ser transferido para sua ilha natal. Lá, longe de toda a hipocrisia, pôde, enfim, fazer jus ao seu epitáfio: “Não espero nada. Não temo nada. Sou livre”.

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LIVROS ESSENCIAIS

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  • A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy. (Laurence Sterne)
  • Ascese. (Nikos Kazantzakis)
  • Cem anos de Solidão. (Gabriel Garcia Marquez)
  • Crime e Castigo. (Dostoiévski)
  • Folhas de Relva. (Walt Whitman)
  • Húmus. (Raul Brandão)
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  • Mahabharata (Anônimo)
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis)
  • Narciso e Goldmund. (Hermann Hesse)
  • O casamento do Céu e do Inferno. (William Blake)
  • O homem que comprou a rua. (Tarcísio Pereira)
  • O Perfume. (Patrick Süskind)
  • Odisseia (Kazantzakis)
  • Odisseia. (Homero)
  • Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. (Rainer Maria Rilke)
  • Peter Pan. (J. M. Barrie)
  • Poemas (Seferis)
  • Poemas Completos de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
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