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Sou doutora em Literatura. Escrevo há mais de 15 anos, mas sem disciplina. Sou aquela escritora que se guarda para o futuro, à espera de um grande acontecimento. Sinto que chegou a hora. É com retalhos e epopeias que me inventarei - com pequenos e grandes eventos - com fragmentos e grandes feitos - serei a tecelã de uma história e a sua heroína. Serei Penélope e Odisseu. Me acompanhe nesta viagem! Colunista da seção de Escrita Criativa na comunidade literária Benfazeja. Livros publicados: FLAUIS (2010) e RETALHOS E EPOPEIAS (Editora Patuá, 2012). Mais sobre mim em meu site oficial

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19 abril, 2011

Homenagem à Literatura Infantil: para crianças e adultos






Abril é o mês da Literatura Infantil. Dia 02 é a sua comemoração internacional, em homenagem ao escritor dinamarquês Hans Christian Andersen; e 18 é a data nacional, que marca o nascimento de Monteiro Lobato. Nossa coluna, hoje, aproveita o momento festivo e traz reflexões importantes sobre a escrita e a leitura de obras destinadas ao público infantil.
Amplamente difundida na contemporaneidade, a literatura infantil parece não apresentar dificuldades de definição, nem tampouco mistérios e conflitos na discussão de suas especificidades. No entanto, como em todo assunto, por mais simples que possa aparentar, é necessário o aprofundamento das reflexões. E envolvidos nessas reflexões críticas descobrimos que a literatura infantil é um tema para ser discutido seriamente.
Historicamente, a Literatura Infantil teve seu início apenas nos séculos XVII e XVIII, juntamente com o nascimento da burguesia. Nas épocas anteriores, não havia a preocupação em desenvolver obras e temas específicos para crianças, pois a infância não era ainda considerada como fase importante na vida do ser humano; era, pois, natural, que as crianças nobres fossem educadas com a leitura de obras clássicas, as mesmas lidas pelos adultos, ou com as histórias de cavalaria e aventuras, popularmente difundidas e consumidas pelas classes baixas. Somente na Idade Moderna, portanto, ocorre a descoberta de que os interesses e necessidades das crianças são diferenciados e merecem atenção específica.
As fontes da Literatura Infantil podem ser encontradas primeiramente em Charles Perrault, que, no século XVII, redescobre os relatos maravilhosos e exemplares e os organiza no livro Contos da minha Mãe Gansa (1697). Importante notar, porém, que a coletânea de Perrault não era especialmente voltada para as crianças, mas tinha preocupações políticas e críticas. Apenas a título de exemplo, praticamente todos os contos de sua coletânea retratam mulheres injustiçadas, ameaçadas ou vítimas, confirmando a intenção de Perrault de apoio à causa feminista. Entretanto, é neste livro que encontramos pela primeira vez A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, A Gata Borralheira, O Gato de Botas, entre outros. Todos estes contos se originaram de antiqüíssimas narrativas dos romances céltico-bretões e de narrativas indianas, que serviram para a orientação moral das crianças francesas daquele tempo.
Na Alemanha do século XIX, surge o interesse dos adultos pelas narrativas maravilhosas. Os irmãos Grimm, estudiosos do folclore e da mitologia germânica, recolhem da memória popular lendas, sagas, relatos das mais diversas fontes, e os publicam em Contos de fadas para crianças e adultos (1812-1822). Entre os mais conhecidos contos de Grimm estão Branca de Neve e os Sete Anões, Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, A Gata Borralheira. É evidente que existe um fundo comum entre os contos de Perrault e de Grimm, como as fontes orientais, célticas e européias. Além disso, em todos está presente o sobrenatural, as metamorfoses, as provas penosas a serem vencidas para a conquista dos desejos. Se, porém, os desafios no destino dos personagens são extremos, há, em contrapartida, a predominância da alegria e do humor, que atenuam o caráter existencial desses contos.
Perrault e os irmãos Grimm são, portanto, os iniciadores das narrativas que encantam as crianças. Mas a verdadeira criação da Literatura Infantil consagrou Andersen. Entre 1835 e 1872, o autor publicou aproximadamente 200 contos infantis, que são parcialmente inspirados na literatura popular, pois Andersen não só resgatou histórias da memória coletiva, como agregou uma novidade a essas coletâneas: a criação de narrativas originais. Fazem parte de sua obra: A pequena vendedora de fósforos, A roupa nova do imperador, A pequena Sereia, O patinho feio. A atmosfera de seus contos já não preza pela alegria e bom humor, e sim corresponde à época romântica na qual viveu o autor: há, em geral, um ar de tristeza e dor.

Em compensação, há ali uma enorme ternura humana, principalmente dirigida aos pequenos e desvalidos. No confronto constante entre o poderoso e o desprotegido, o forte e o fraco... seus contos enfatizam não só a injustiça do poder explorador como também a superioridade humana do explorado, expressando assim a consciência democrática e cristã de que todos os homens devem ter direitos iguais, ideal básico do Romantismo. Enfim, sente-se, em todos os contos de Andersen, o esforço de racionalização do imaginário, em benefício de um mundo real mais gratificantes para todos os homens. (COELHO, p.77-78)





Aberto o caminho com Perrault, Grimm e Andersen, foram surgindo novas propostas literárias: Carlo Colodi (Pinocchio), Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas), J. M. Barrie (Peter Pan), Mark Twain (As aventuras de Tom Sawyer). Em relação ao Brasil, a Literatura Infantil teve início com obras pedagógicas e adaptações de textos portugueses. A genuína literatura infantil brasileira começa mesmo com Monteiro Lobato, que tanto explorou o folclore, como deu origem a histórias imaginadas, marcadas por preocupações com os problemas nacionais e mundiais.
Feita a introdução histórica, qual a real situação da Literatura Infantil? Se, por um lado, a descoberta dos textos maravilhosos foi um progresso nas relações familiares e na própria formação da criança, por outro gerou um impasse na literatura, pois, desde o início, estabeleceu-se a associação entre literatura infantil e pedagogia, com fins de moralização e educação, o que, muitas vezes, esvazia o texto de seu valor estético e reduz a literatura infantil a um gênero menor na esfera da literatura geral.
A excessiva preocupação pedagógica traz diversos problemas e questões ao gênero em questão, tais como: 1) muitos educadores e escritores de literatura “para adultos” questionam a existência da Literatura Infantil; 2) muitos autores de Literatura Infantil se incomodam de dizer que escrevem para crianças, preferindo classificar sua obra como “sem destinatário” ou “para todas as idades”. O receio de se confessar autor de obras infantis é um índice do desprestígio da Literatura Infantil em relação à Literatura Geral. Não seria, porém, uma avaliação equivocada do gênero feita por educadores e público, o que gera, em conseqüência, o incômodo do escritor? Não estariam certos os autores de obras “para adultos” quando questionam o estatuto da Literatura Infantil?
Pensemos com calma! A obra literária em geral se caracteriza pela ampla possibilidade de leituras, pela plurissignificação, pela conotação, pela arte de expressar algo de maneira criativa. Quanto mais possibilidades de interpretação ela apresentar, mais poética será. E a Literatura Infantil? Seria um gênero distinto, a parte? Representaria somente a função de construir a moralidade do indivíduo em formação? Perderia, desta forma, sua característica literária e se tornaria um veículo, uma metodologia para o ensino de determinadas condutas, regras, padrões à criança?
A maior razão para o desprestígio da obra infantil é a sua associação com a pedagogia.Uma obra com intenções moralizantes ou educativas leva o leitor a uma única interpretação da vida, priva-o de sua liberdade de atribuir sentido ao mundo, de construir por si só... O que se deve esperar verdadeiramente de uma criança é que ela se interesse por refletir, recriar, transformar e estabelecer relações com um mundo que nada tem de unívoco.
Ao invés de reduzir a Literatura Infantil a uma função utilitária, como se as crianças não tivessem condições intelectuais para compreender obras com maior complexidade, seja em sua temática, seja em sua estrutura, é preciso entender que a obra feita para a infância é a mesma que agrada o leitor adulto e vice-versa. Muitas obras literárias escritas para adultos podem ser lidas na infância (Robinson Crusoé, Viagens de Gulliver, etc) e a verdadeira literatura infantil é aquela agrada os adultos e também as crianças.
A literatura infantil não deve, pois, ser apreciada em sua função utilitário-pedagógica. Mais do que formar o pensamento da criança e apresentar-lhe um código de valores, a obra escrita para crianças é essencialmente a mesma obra de arte destinada aos adultos, com os mesmos recursos e procedimentos literários utilizados na criação da literatura geral. A facilitação e a redução artística não só empobrecem o texto, tornando-o artificial, como são percebidas pela própria criança, que desconfia e se desinteressa da leitura. Mesmo que a criança ainda não utilize as diversas construções da linguagem, não significa que ela ainda não possa compreender os ornamentos do texto, chegar às suas próprias conclusões, produzir uma interpretação e igualmente criar seu comportamento. A simplicidade requerida pela literatura infantil não implica que ela deva ser pueril e destituída de recursos poético-narrativos.
 Assim, para a escrita de obras infantis, bem como para a escolha de uma boa bibliografia de leitura, é importante não desmerecer a capacidade da criança de percepção e interpretação e, deste modo, oferecer a ela a possibilidade de desenvolver a análise crítica e poética, a apreensão do sentido metafórico das coisas e as habilidades que propiciarão a compreensão de si e a sua relação com o mundo.
Se queremos, de fato, comemorar o mês da Literatura Infantil, que nossa relação com os textos e a infância recupere o trabalho de encantamento realizado por Andersen e seus precursores e pelo grande Lobato, pois o encanto está na descoberta que a própria leitura literária nos proporciona: na palavra mágica. Que ninguém mais se envergonhe de ler e de escrever textos infantis, pois se escritos com recursos literários, seus efeitos em nada desmerecerão a grande literatura.

BIBLIOGRAFIA:

COELHO, N. N. O Conto de Fadas. São Paulo: Editora Ática, 1991.
CUNHA, M. A. A. Literatura Infantil. Teoria e Prática. São Paulo: Ed. Ática, 1995.
MEIRELES, Cecília. Problemas da Literatura Infantil. São Paulo: Summus Editorial, 1979.

Artigo publicado no site Benfazeja


2 Comentaram. Deixe seu comentário também!:

Eliane Ratier disse...

Carol, excelente texto! Quem dera que nossos professores e dirigentes conseguissem enxergar isso ao sugerirem a leitura para o público infantil, e quem dera que alguns escritores ditos "para crianças" começassem realmente a escrever com arte resgatando a "palavra mágica", o encantamento. Aposto que teríamos mais leitores no futuro. Beijo

GIL ROSZA disse...

Bacana o artigo. Também acho que a principal função da literatura infantil é procurar dotar uma mente jovem com a capacidade de enxergar as coisas que podem fazer do mundo um lugar melhor para todo mundo.

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